Raro

– Tens noção que não és muito vulgar, não tens?
– Não sei…
– Bom, mas então digo-to eu. És realmente invulgar.
– Achas?
– Sim
– Seja. Tens ido ao circo ultimamente?
– Hum?!
– Circo! Aquilo que tem malabaristas, palhaços, mágicos, …
– Não, há alguns anos que não vou…
– Queres ir? … Comigo?
– Mesmo tu, que não vives neste mundo, já deves ter percebido que quando olho para ti me saem coraçõezinhos pelos olhos! Portanto também não te deve ser difícil calcular que basta dizeres “comigo” para tudo o resto ser irrelevante.
– O que é que queres dizer com “tu, que não vives neste mundo”?
– Sabes bem
– Não sei não!
– És distante, aluada, não lês jornais, não vês televisão, não ouves rádio, entras em transe no meio de multidões e parece que tudo te é novo!
– Hum…
– és misteriosa, incompreensível, despreocupada, carinhosa, e quando dizes palavras elas não parecem palavras… Parece música!
– Não percebo nada do que estás a dizer!
– ou não queres perceber…
– Se calhar…
– Vês?
– O quê?
– És incrível!

Dedicatória (de Jorge Luís Borges)

Há um pequeno conjunto de contos de Jorge Luís Borges, que ficou compilado com o nome de “História Universal da Infâmia” e se lê de um fôlego só. Na dedicatória escreveu isto:

Jorge Luís Borges por Beti Alonso“…I offer her that kernel of myself that i have saved, somehow – the central heart that deal not in words, traffics not with dreams and is untouched by time, by joy, by adversities.”

numa tradução modesta seria:

“… Ofereço-lhe aquele âmago de mim que consegui salvar, de alguma maneira – o coração central que não lida com palavras, não trafica com sonhos e que é intocado pelo tempo, pela alegria, por adversidades.”

Não é uma coisa bonita de se dar?