Aldeia pequena

O homem já não sabia mais o que fazer.
Tinha-se alistado na marinha, tinha ido a pé a Fátima, viveu num mosteiro no Nepal, fora em peregrinação a Meca, mas mesmo assim não conseguia encontrar a paz.
Foi beber uma bica a um café de uma aldeia pequena, onde havia um anúncio:
“Precisa-se de empregada(o)”
Esqueceu tudo o que fizera antes e ficou com o emprego.

Passaram mais de quarenta anos. Ele ainda lá está. Nunca escreveu um livro para ajudar os outros a encontrar a felicidade, nunca fez um discurso para mais do que 10 pessoas, mas o sorriso generoso que já no primeiro dia trazia, agora transformou-se em algo muito poderoso que afecta todos os que passam perto. Ninguém conhece bem aquele homem, de onde veio, se tem família, mas todos, sem excepção, vão lá tomar o café sempre que podem, nem que seja para ouvi-lo desejar-lhes os bons dias; é que quando ele faz isso, os dias são realmente melhores.

Ti          
Setembro 2007

Crónicas de Vânia – parte 1

Sempre fui muito bonita e também sempre soube disso. De qualquer maneira isso não me parece razão para ter tudo o que queira.

Às vezes julgam-me convencida porque digo que consigo ter qualquer homem que queira. Na realidade acho que isso é uma maldição. Acabo sempre por achar fácil demais. Os homens apaixonam-se todos só pelo que é superficial. Normalmente bastam algumas horas para fazer com que fiquem a pensar em namoro…

É verdade que ainda sou muito nova, mas isso não justifica o meu levianismo.

Houve um tempo em que estava tão irritada com esta falta de selectividade por parte dos homens, que deixei de ter o mínimo cuidado com a aparência; Usava calças justas e vermelhas a combinar com t-shirts largas e amarelas, usava gorros velhos e pintava as unhas de verde.
Confesso que foi muito divertido, especialmente quando obrigava os homens a mentir por perguntar-lhes o que é que achavam do meu cabelo azul, ou daqueles sapatos horríveis amarelo-leopardo, e eles diziam depois de se engasgarem que eu estava… diferente.

Cresci educada a acreditar que o trabalho e mérito são o que nos leva onde queremos, mas a vida leva-me a crer que não é assim…

Vânia,  Janeiro 2007