Primavera

Todo o amor que nos prendera,
Como se fora de cera,
Se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,
Quem me dera, quem nos dera,
Ter morrido nesse dia.

E condenaram-me a tanto,
Viver comigo meu pranto,
Viver, viver e sem ti.
Vivendo sem no entanto,
Eu me esquecer desse encanto,
Que nesse dia perdi.

Pão duro da solidão,
É somente o que nos dão,
O que nos dão a comer.
Que importa que o coração,
Diga que sim ou que não,
Se continua a viver.

Todo o amor que nos prendera,
Se quebrara e desfizera,
Em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera,
Quem me dera, quem nos dera,
Ter morrido nesse dia.

David Mourão-Ferreira

Adão e Eva – José Régio

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a carne lhe pedia.
– E cada um de nós sonhou que o achara…
E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
…Se deu, e se dará continuamente:
Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.
– O meu nome é Adão…
E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!
Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!
Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!
Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.
Assim toda te deste,
E assim todo me dei:
Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.
E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-me tudo!
…Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.
Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado.
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!
E assim Adão e Eva se conheceram:
Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe…
Eu os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade,
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce…
Depois…
Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– Que Jeová não sabe perdoar!
O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…
Continuámos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!
 
 
 
José RégioAdão e Eva

Por toda a minha vida

Eu sei que vou te amar
não consigo deixar de amar
é sempre assim,
depois de começar
a amor nunca mais tem fim
Por toda a minha vida eu vou te amar
e quando para ti eu for só
um resquício de memória
limpo com um trapo do pó
sem sequer ter história
Em cada despedida eu vou-te amar
e vão ser tantas, tantas!
quando perceberes que não me queres
as vezes serão quantas?
que me partirás o coração quando fores
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
e por mais que fuja
não vou conseguir
limpar a minha alma suja
de tanto te perseguir
E cada verso meu será para te dizer
que eu sei que vou te amar
por mais voltas que dê
encontro-me sempre aqui
onde tudo o que se vê
foi feito para ti
Por toda minha vida
para sempre, sempre, sempre
estás entranhada na minha pele
mesmo que não me lembre
o meu coração tem-te nele
Eu sei que vou chorar
como uma fonte
carpir até ficar seco como papel
vazio, deixado num monte
vagando ao vento como fel
A cada ausência tua eu vou chorar
e como faltas… quando faltas…
fica tudo vazio, como que sugado
até para as árvores mais altas
não há Sol, está tapado
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
e levar as nuvens, a tristeza,
a saudade e a desalegria
fica só o bom, a leveza
e fica o teu nome Maria
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
e para sempre vou querer
mas nunca me vais dar-te
ainda assim nunca vou aprender
a não ficar vazio quando o teu ser parte
Por toda minha vida
toda a minha vida…
toda a vida…
a vida..
vi…

Ti (Vinícius)
Outubro 2006

Capitão Romance

Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar.

Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu…

Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater
Esperam-me homens que desistem
Antes de morrer

Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou

Eu vi,
Mas não agarrei…

Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver pra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro pra sentir

Dar sentido à viagem
Pra sentir que eu sou capaz
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz.

Eu vi,
Mas não agarrei…

“Capitão Romance” – Ornatos Violeta.

Carris

Saltei do comboio!
Esse onde seguem todos excepto os que saltaram comigo.

Ainda o consigo ver no horizonte
e sei que se aligeirar o passo ainda o consigo alcançar

Podia voltar ao comboio e ser de novo o seu rei
mas, se calhar, deixava de ter valor para mim próprio
e assim não me conseguiria suportar.

Tenho um horizonte imenso à minha frente,
mas menos força para o palmilhar
do que a que tinha nas outras vezes em que saltei dos outros comboios

Tenho mais sabedoria, mas menos coragem
tenho mais idade, mas também estou mais velho

Estou naquela altura da viagem em que tivera eu vontade
e podia ultrapassar qualquer comboio,
ou até construir o meu próprio comboio
e levar quem quisesse vir comigo.
Tenho a sabedoria e arrogância,
mas falta-me a vontade, só isso!

E apesar de saber que as pernas têm força e velocidade
não consigo convencê-las a correr
e mesmo sabendo por onde é que tenho que ir
não consigo começar o caminho

Por isso é que ainda aqui estou,
atirado ao chão por mim mesmo
sem conseguir ir em nenhuma direcção

mesmo sabendo
que os abutres começam a acercar-se
e que o único modo que há de não acertar
é ficando parado,
à espera

bastava mexer-me,
bastava tentar,
já saltei do comboio
e para isso foi preciso coragem (ou medo)

mas não serve de nada
se agora ficar
em vez de prosseguir

o medo de seguir pelo caminho errado
parece impedir-me de andar

e logo eu que sei tão bem
que o único modo de acertar
é seguindo um caminho
para quando se chegar ao final
descobrir se acaba ali
ou se retomamos a caminhada
por não ser o caminho certo.

Seguir pelo caminho errado está certo
parar é que é pecado.

E eu…

estou parado.
.

Ti
Abr 2006

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