Tudo isto

Começou devagarinho,
como uma torneira que goteja esquecida
deixou de ser um som, passou a Ser
só assim.
como uma espécie de Deus…
omnipresente

Perguntaste-me outro dia
se eu sabia o que era Amor
eu disse não sabia,
nada de seja o que fôr

sem saber o que dizia
eu não menti naquela hora
e disse que não sabia
e continuo sem saber agora

Frases sentidas
Luas perdidas
Faces alumiadas

Tanta Alegria
do nascer ao fim do dia
passeios de mão dadas

Amor, ternura
beijos, loucura
abraço apertado

Tudo isto viste
Saudade insiste
Amor calado

Se queres ter o meu amor
e viver comigo lado a lado
não venhas só quando há dor
vem também para o pecado

O meu fado é contigo
só nasci para te ver
e se te vejo não sei o que digo
Mas também não quero saber.

o silêncio interrompia o gotejar com uma periodicidade ensandecente
mas por fim impôs-se nada
e o poeta pôde dormir em paz

Sarah Kay – Hiroshima

Mais um poema da jovem poetisa Sarah Kay

Quando bombardearam Hiroshima a explosão formou uma pequena Supernova, de tal forma que todo o animal, humano ou planta que teve contacto directo com os raios desse sol foi transformado instantaneamente em cinza. E o que sobrou da cidade logo seguiu o mesmo destino.
Os duradouros danos da radiação nuclear fizeram com que uma cidade inteira e a sua população se transformasse em pó.
Quando nasci, a minha mãe diz que olhei em volta do quarto de hospital com um olhar que dizia:
“Isto? Eu já fiz isto antes”.
Ela diz que eu tenho olhos velhos.
Quando o meu avô Genji morreu, eu tinha apenas 5 anos, mas peguei a minha mãe pela mão e disse-lhe: “Não te preocupes, ele vai voltar como um bebé”.
E, no entanto, para alguém que aparentemente já fez isto antes, ainda não percebi nada.
Os meus joelhos ainda tremem todas as vezes que subo a um palco. A minha auto-confiança pode ser medida em colheres de chá misturadas com a minha poesia, e continua a deixar sempre um sabor estranho na minha boca.
Mas em Hiroshima, algumas pessoas foram varridas, deixando só um relógio de pulso ou uma página de diário. Por isso, não importa se tenho inibições para encher todos os meus bolsos, continuo a tentar, esperando que um dia escreva um poema que me orgulhe tanto que possa ser exibido num museu como a única prova que existi.
Os meus pais deram-me o nome de Sarah, que é um nome bíblico. Na história original, Deus disse a Sarah que ela podia fazer algo impossível e ela riu-se, porque essa Sarah,
ela não sabia o que fazer com o impossível.
E eu? Bem, eu também não, mas eu vejo o impossível todos os dias. O impossível é tentares relacionar-te neste mundo, tentares agarrar os outros enquanto tudo explode à tua volta, sabendo que enquanto falas eles não estão só à espera da sua vez de falar: eles ouvem-te! Sentem exactamente aquilo que tu sentes ao mesmo tempo que tu o sentes!
É o que almejo cada vez que abro a minha boca – essa ligação impossível.
Há um pedaço de parede em Hiroshima completamente preto, queimado pela radiação. Mas no passeio em frente, estava uma pessoa sentada que impediu a radiação de atingir a pedra. A única coisa que resta agora é a permanente sombra de luz positiva. Depois da bomba atómica, os especialistas disseram que demoraria 75 anos para que no solo de Hiroshima, danificado pela radiação, voltasse a crescer alguma coisa. Mas nessa mesma Primavera, havia já rebentos a brotar da terra.
Quando eu te conheço, nesse momento, eu já não sou parte do teu futuro. Começo rapidamente a tornar-me parte do teu passado.
Mas nesse instante, eu partilho o teu presente.
E tu, tu partilhas o meu.
E esse é o maior presente de todos.
Então se me dizes que eu consigo fazer o impossível, provavelmente vou-me rir de ti.
Não sei se consigo mudar o mundo já, porque não sei assim tanto acerca dele, e também não sei muito sobre reencarnação, mas se me fizeres rir o suficiente, posso até esquecer-me do século em que estou. Esta não é a minha primeira vez aqui. Esta não é a minha última vez aqui. Estas não serão as últimas palavras que vou partilhar.
Mas, por via das dúvidas, estou a dar o máximo para acertar
desta vez.

 

Migalhas

Sinto muito mas não vou medir palavras
Não se assuste com as verdades que eu disser
Quem não percebeu a dor do meu silêncio
Não conhece o coração de uma mulher
Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor

Quem começa um caminho pelo fim
Perde a glória do aplauso na chegada
Como pode alguém querer cuidar de mim
Se de afeto esse alguém não entende nada
Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor

Não foi esse o mundo que você me prometeu
Que mundo tão sem graça
Mais confuso do que o meu
Não adianta nem tentar
Maquiar antigas falhas
Se todo o amor que você tem pra me oferecer são migalhas
Migalhas

Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor
Sinto muito mas não vou medir palavras
Sinto muito

Erasmo Carlos

Fazes-me falta

sou muito fraquinha sozinha
precisava-te tanto
a tua perna enroscada na minha
e o teu calor a servir de manto

mas não podes estar comigo
porque te afasto sempre
por mais que tente não consigo
fazer com que o amor entre

Voltasses só por um momento
para me afagares o cabelo
o tempo seria imenso, lento
antes que se quebrasse o elo

viesses, se quisesses vir
se me quisesses dar alegria
conseguias sempre fazer-me sorrir
mesmo quando mais nada fazia

Vânia, 30 Fevereiro 2010

Vinicius

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz
Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor

Ary dos Santos

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se fôr um copo é um copo
se fôr um cão é um cão.

Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato que anda sem eira nem beira e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?

Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas pelos nomes que elas são.

José Carlos Ary dos Santos

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