Carta de desapego

O tempo é-me muito barato.
Atiro-o por aí, sem razão, sem motivo, sem padrão sequer.
Dizem os sábios que quando as coisas nos saem do corpo,
têm mais valor.
Não têm.
Tudo o que me sai, sai do corpo.
O que sai da alma… isso sim, tem valor.
Mas eu não tenho profundidade, sou tudo o que se vê,
sou mais nada do que o que se vê.
Uma cigana quiromante disse que as linhas da minha mão
são apenas linhas, revelam nada.

Não tenho segundas intenções,
mas não tenho intenções.
Tenho a espessura de uma folha de papel
Sou sem nada, desalmado.

Escrevo-te assim porque, ainda que não tendo qualquer direito ou influência sobre ti, quero retirar-te qualquer peso que possa entravar, por menor que seja, a tua procura por felicidade.

És boa, das que desequilibram o mundo para o lado da esperança e da Alegria.
Só de imaginar os teus olhos abertos para os meus, fico com vontades, esperanças, planos para conquistar o mundo. Mas depois imagino-os a olhar os meus e vejo neles a desilusão de te falhar.
Não consigo ser responsável pela morte dessa Alegria.
Quero-te melhor do que o que terias perto de mim.

Agora, quando desisto de ti, descubro que a magreza que julgava do meu coração, pode implodir ainda mais.
Já não sou fino, plano, sou só um ponto.
Um ponto não pode ter nada a dizer.

tudo desexiste

fogoO Amor sem razão
não é Amor, é tesão.

O Amor não é o mais forte sempre.
Há momentos em que o forte, é mais forte do que o bom
claro que, no final, o bom vence sempre,
mas é muito importante saber-se que às vezes aquilo que nunca sentimos antes,
que parece ser impossível não ser certo, é “apenas” paixão
e devemos também saber que quando passar a paixão,
vamos ter que ficar com o que resta.

Em último caso há que lembrar que tudo acaba
e portanto mesmo o que é realmente importante
deixará de existir…

Leste, leste?

No dia em que nos fomos, disse-te que não tinha deixado de gostar de ti nem um milímetro menos, que me acontecia sempre cada vez gostar mais e que o meu Amor por ti nunca iria diminuir. Suponho que não tenhas acreditado em mim, porque o que dizia, não combinava com a nossa separação. A verdade é que, ainda agora, no momento em que estas linhas aparecem, tenho sobretudo Amor por ti, como nunca antes, não porque seja maior ou menor, simplesmente porque é mais puro. Não te quero, simplesmente quero-te bem.
Um dia, muito distante daquele em que nos dissemos adeus, com muita vida pelo meio e ainda mais distância entre nós, ouvi a proclamação o teu Amor ao mundo. Fiquei genuína e surpreendentemente feliz. A cedência ao Amor por outro é sempre comovente e, neste nosso caso o teu Amor será sempre um niquito meu.
Quando deixamos de nos importar com o omnipresente ego descobrimos o que sobra e, em ti o que fica é bondade.
Tenho tanto orgulho em ti!
Como quer que seja que queiras mostrar ao mundo o que esse dia foi para ti, digo-te com a presunção, que sempre tive, de que te conheço, que foi dos mais bonitos e comoventes da tua vida.
Parabéns! E agora cumpre o único teu dever que tens para comigo… ser feliz.

Quero-te bem,