Raro

– Tens noção que não és muito vulgar, não tens?
– Não sei…
– Bom, mas então digo-to eu. És realmente invulgar.
– Achas?
– Sim
– Seja. Tens ido ao circo ultimamente?
– Hum?!
– Circo! Aquilo que tem malabaristas, palhaços, mágicos, …
– Não, há alguns anos que não vou…
– Queres ir? … Comigo?
– Mesmo tu, que não vives neste mundo, já deves ter percebido que quando olho para ti me saem coraçõezinhos pelos olhos! Portanto também não te deve ser difícil calcular que basta dizeres “comigo” para tudo o resto ser irrelevante.
– O que é que queres dizer com “tu, que não vives neste mundo”?
– Sabes bem
– Não sei não!
– És distante, aluada, não lês jornais, não vês televisão, não ouves rádio, entras em transe no meio de multidões e parece que tudo te é novo!
– Hum…
– és misteriosa, incompreensível, despreocupada, carinhosa, e quando dizes palavras elas não parecem palavras… Parece música!
– Não percebo nada do que estás a dizer!
– ou não queres perceber…
– Se calhar…
– Vês?
– O quê?
– És incrível!

Estranhismo

Estranho teimava em ficar por cima,
ao lado, por baixo, à volta,
em tudo o que era seu ou ele.

Não era bem Estranho era mais um “Blur”,
não só por ser uma palavra que explica melhor aquilo,
mas também por ser estrangeira, o que aumenta a estranheza e a torna mais deslocada e descontextualizada.

The Blur or “Estranho”, to be more exact,
was not alone,
there was a sort of “fade out”, a very slow “fade out”, where lights seemed to be dimming out into a quiet yet unpeaceful silence.

The man could hear the blood flowing in his own veins
that was unconfortable
so he started ripping off his ears
perhaps that would make him a great artist…

ele nunca tivera jeito para a arte que o escolhera
mas a vida um dia levantou-se do seu pedestal e assim decidiu
desde esse dia que pinta paredes, das de cimento, não de Carlos

Tinha o nome do que pintava
mas com maiúscula no inicio
gostava de fantasiar que o génio guitarrista seria seu primo afastado,
mas na realidade podiam ser até irmãos
de mães diferentes, mas irmãos
nem que fosse na inaptidão aparente,
que depois se provava genial

pintar paredes era aparentemente
porque na realidade o que fazia era vesti-las
despediram-no depois de ter pintado uma parede de beije
insistiam que a queriam branca
mas aquela parede já não era pura
e por isto não se sentia bem dessa cor
e ele não podia contrariar a vontade da própria parede.

tornou-se vendedor de bolas de Berlim
inicialmente porque não havia mais nada
mas depois porque sim.
Claro que as bolas não lhe pareceram bem
e todos os dias ainda antes do sol nascer e os veraneantes começarem a aparecer na praia
polvilhava-as com açúcar em pó fino
desenhava com o açúcar o que lhe parecia mais apropriado a cada uma das bolas
em poucos dias era o mais popular vendedor de bolas de Berlim da praia
e podia mesmo ter ficado muito rico quando, depois de decidir duplicar o preço das bolas, todos continuavam a preferi-lo.
mas uma manhã acordou a achar que as bolas eram maltratadas
e como não podia ficar com o dinheiro
atirou-o janela fora
ficou muito popular entre os vizinhos
mas isso fazia-o lembrar que só era assim
porque tinha atirado dinheiro pela janela
que tinha ganho a vender bolas de Berlim
que eram maltratadas

por isso
foi-se embora
para um sítio qualquer onde o pudessem apreciar sem passado
de facto foi isso que aconteceu
todos o achavam um bocado “passado” no novo sítio

ou porque dormia à porta de casa
dizia que ela não o deixava entrar
– ela quem?
– a casa.
– deixou a chave lá dentro?
– não, homem de Deus, já lhe disse que a casa é que não me quer deixar entrar!
– você é difícil!
– pois sou, desculpe!
Era difícil para ele perceber como é que as pessoas corriam tanto para conseguirem nada!

63 lines after the start, the world was exactly as it was before
there seemed to be no hope for it
and when hope is gone, it means everything else was already over.
is this?

Sonho encontrado numa garrafa de água com gás

Encontraste um sonho
numa garrafa de água com gás
foi belo, incolor e singelo
textura de poliester em lá
tinha cabelos de loira
e arpejos de Sol, Dó e Fá
Pés descalços lá fora
dançando logo pela manhã
Ainda é cedo para cantar
mas patinhar pode ser já
Os semáforos da praia
dizem que o Sol está bom
mas as notas encalhadas
aumentam a ondulação

A menina acha que 50
é idade de velha
mas tudo se consegue
sabendo o burro que se aparelha
nada sem saber, despreocupada
com cordões de pranchas para flutuar
O cabelo espiga com água salgada
mas já falta pouco para chegar
Pelo barulho das águas
não conta regressar
mas já é mais o que viveu
do que o que está para chegar

Vê enfim a maravilha
como se fosse um salmão
depois de lutar contra a corrente
de rios de solução

nenhuma solução a resolveu
ou não quis nenhuma delas
agora não importa, já escolheu
a solução mais feia, entre tantas belas
deixa-se boiar,
sem querer saber
embalada por aquele imenso mar

Tudo isto

Começou devagarinho,
como uma torneira que goteja esquecida
deixou de ser um som, passou a Ser
só assim.
como uma espécie de Deus…
omnipresente

Perguntaste-me outro dia
se eu sabia o que era Amor
eu disse não sabia,
nada de seja o que fôr

sem saber o que dizia
eu não menti naquela hora
e disse que não sabia
e continuo sem saber agora

Frases sentidas
Luas perdidas
Faces alumiadas

Tanta Alegria
do nascer ao fim do dia
passeios de mão dadas

Amor, ternura
beijos, loucura
abraço apertado

Tudo isto viste
Saudade insiste
Amor calado

Se queres ter o meu amor
e viver comigo lado a lado
não venhas só quando há dor
vem também para o pecado

O meu fado é contigo
só nasci para te ver
e se te vejo não sei o que digo
Mas também não quero saber.

o silêncio interrompia o gotejar com uma periodicidade ensandecente
mas por fim impôs-se nada
e o poeta pôde dormir em paz

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