Saudade ou amuo de cantor frustado.

Olá prima. Hoje tenho tantas saudade tuas que até dói.
Hoje, como quase sempre, pediram-me que me calasse. Sou bem educado, fui falar para a nossa praia. Lembras-te, a praia da Lua? Passamos lá uma noite inteira, do Pôr ao Nascer do Sol, abraçados, a olhar para o horizonte e a adivinhar músicas nas ondas. Por quatro vezes conseguimos ouvir as mesmas músicas!
Não sei porque é que a praia está sempre deserta, mas aquece-me saber que está lá sempre para me ouvir. Tu também eras assim, pedias-me para cantar para ti, gostavas genuinamente de me ouvir, fosse bom ou mau pedias sempre mais. Gostavas do que eu fazia, independentemente do que fosse.
Um sábio disse-me uma vez que o amor não tem relação com nada, podes não gostar e amar a mesma coisa, podes até não querer mas amar na mesma.
Disseste uma vez que gostavas mais de mim quando cantava. Foste a única; todos gostam menos de mim quando canto. Eu também gosto mais de ti quando canto.
Podia dizer que hoje canto para ti, mas a verdade é que quase sempre canto para ti, portanto hoje, para ser especial, vou conduzir até à praia da Lua e vou ficar em silêncio, do Pôr ao Nascer do Sol.
Só faltam 2h para o Sol se pôr, até já!
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Estranhismo

Estranho teimava em ficar por cima,
ao lado, por baixo, à volta,
em tudo o que era seu ou ele.

Não era bem Estranho era mais um “Blur”,
não só por ser uma palavra que explica melhor aquilo,
mas também por ser estrangeira, o que aumenta a estranheza e a torna mais deslocada e descontextualizada.

The Blur or “Estranho”, to be more exact,
was not alone,
there was a sort of “fade out”, a very slow “fade out”, where lights seemed to be dimming out into a quiet yet unpeaceful silence.

The man could hear the blood flowing in his own veins
that was unconfortable
so he started ripping off his ears
perhaps that would make him a great artist…

ele nunca tivera jeito para a arte que o escolhera
mas a vida um dia levantou-se do seu pedestal e assim decidiu
desde esse dia que pinta paredes, das de cimento, não de Carlos

Tinha o nome do que pintava
mas com maiúscula no inicio
gostava de fantasiar que o génio guitarrista seria seu primo afastado,
mas na realidade podiam ser até irmãos
de mães diferentes, mas irmãos
nem que fosse na inaptidão aparente,
que depois se provava genial

pintar paredes era aparentemente
porque na realidade o que fazia era vesti-las
despediram-no depois de ter pintado uma parede de beije
insistiam que a queriam branca
mas aquela parede já não era pura
e por isto não se sentia bem dessa cor
e ele não podia contrariar a vontade da própria parede.

tornou-se vendedor de bolas de Berlim
inicialmente porque não havia mais nada
mas depois porque sim.
Claro que as bolas não lhe pareceram bem
e todos os dias ainda antes do sol nascer e os veraneantes começarem a aparecer na praia
polvilhava-as com açúcar em pó fino
desenhava com o açúcar o que lhe parecia mais apropriado a cada uma das bolas
em poucos dias era o mais popular vendedor de bolas de Berlim da praia
e podia mesmo ter ficado muito rico quando, depois de decidir duplicar o preço das bolas, todos continuavam a preferi-lo.
mas uma manhã acordou a achar que as bolas eram maltratadas
e como não podia ficar com o dinheiro
atirou-o janela fora
ficou muito popular entre os vizinhos
mas isso fazia-o lembrar que só era assim
porque tinha atirado dinheiro pela janela
que tinha ganho a vender bolas de Berlim
que eram maltratadas

por isso
foi-se embora
para um sítio qualquer onde o pudessem apreciar sem passado
de facto foi isso que aconteceu
todos o achavam um bocado “passado” no novo sítio

ou porque dormia à porta de casa
dizia que ela não o deixava entrar
– ela quem?
– a casa.
– deixou a chave lá dentro?
– não, homem de Deus, já lhe disse que a casa é que não me quer deixar entrar!
– você é difícil!
– pois sou, desculpe!
Era difícil para ele perceber como é que as pessoas corriam tanto para conseguirem nada!

63 lines after the start, the world was exactly as it was before
there seemed to be no hope for it
and when hope is gone, it means everything else was already over.
is this?

Sonho encontrado numa garrafa de água com gás

Encontraste um sonho
numa garrafa de água com gás
foi belo, incolor e singelo
textura de poliester em lá
tinha cabelos de loira
e arpejos de Sol, Dó e Fá
Pés descalços lá fora
dançando logo pela manhã
Ainda é cedo para cantar
mas patinhar pode ser já
Os semáforos da praia
dizem que o Sol está bom
mas as notas encalhadas
aumentam a ondulação

A menina acha que 50
é idade de velha
mas tudo se consegue
sabendo o burro que se aparelha
nada sem saber, despreocupada
com cordões de pranchas para flutuar
O cabelo espiga com água salgada
mas já falta pouco para chegar
Pelo barulho das águas
não conta regressar
mas já é mais o que viveu
do que o que está para chegar

Vê enfim a maravilha
como se fosse um salmão
depois de lutar contra a corrente
de rios de solução

nenhuma solução a resolveu
ou não quis nenhuma delas
agora não importa, já escolheu
a solução mais feia, entre tantas belas
deixa-se boiar,
sem querer saber
embalada por aquele imenso mar

Podre

Nós eramos uma espécie de vegetais, viviamos demolhados em antidepressivos e calmantes, que nos mantinham em permanente sonolência despreocupada. Eramos um casal completamente disfuncional, mas não se notava porque os outros eram iguais.
Tivemos um filho e isso parecia que nos ia dar a energia que faltava, mas na realidade as noites sem dormir aumentaram a dose de calmantes ao invés de a reduzir.
Uma noite, enquanto a nossa filha, quase amada, dormia entre nós; aconteceu.
A nossa filha era “quase amada” porque em tudo o que faziamos era como se fôssemos zombies, até o amar era “mais ou menos”.
Naquela noite, como em quase todas, estavamos encharcados em medicamentos. Um de nós, não sabemos qual, virou-se na cama e com o peso dos nossos corpos disformes e gordos asfixiamos o único raio de luz que tinhamos na vida.
Assim, tal e qual. É assim que conto, porque foi assim que se passou.
Gostava de dizer que fiqueio desesperado e que atirei com coisas pelo ar, ou que fiquei catatónico durante meses.
Não. Fiquei na mesma, incapaz de sentir o que quer que seja. A minha mulher não sei, foi embora uma semana depois.
Sempre que falo sobre isto, há qualquer coisa dentro de mim que começa a doer, mas tomo um comprimido e vinte minutos depois começo a ficar melhor.
Não me rio há anos, mas também não choro.
É isto.

Pau quê? …lismo!

Deu três voltas no tumulto
e correu
correu
como naquele filme do “astuto da floresta”
enquanto corria ia crescendo,
contrariando todos os especialistas que dizem que se cresce durante o sono e que o excesso de exercício é prejudicial ao crescimento.
Prejudicial é atirar papéis para o chão
ou colocar metal no ecoponto dos papéis
Os papéis servem para se dar uso aos pincéis, se bem que se poderiam usar em paredes, mas há mais pincéis que paredes. E as chuvas?…
As chuvas limpam, ou sujam com coisas novas
mas quase sempre o novo é melhor do que o velho,
por isso é que agora se muda só por mudar,
não se melhora, muda-se simplesmente.
É mais fácil.
Será? Quanto custa fazer bem feito? e mal feito?
Acho que custa o mesmo, mas pelo menos o mal feito dá prazer…

Vou trabalhar.
E tu? não tens que fazer?
então vá…

Ti           
Maio 2011 

Viclo Cicioso

– Olha lá, afinal vamos ou não vamos acabar de ver o filme?
– Tu gostas mesmo do filme?
– O que eu quero é estar contigo, não importa onde, nem a fazer o quê.
– Bonito… Isso é realmente muito bonito de se dizer.
– Mas eu não digo por ser bonito, digo porque sinto.
– Eu sei. A questão é: Como é que te consegues enganar tão bem?
– O quê?
– Tu percebeste.
– Lá estás tu outra vez a falar por enigmas… Não sabes ter uma conversa de gente? Com o sujeito antes do verbo, como toda a gente?!
– Sei, mas a forma que tenho de dizer o quero às vezes não se compadece com as regras gramaticais.
– Por falar nisso… Já arranjaste maneira de ganhar a aposta que fizeste com o Alfredo?
– Hã? Aposta!
– Sim, aquela do “imenso”.
– Ah, isso. Como é que lhe posso provar que “imenso” pode ser um adjectivo?
– Pois não sei, tu é que és o casmurro que tem que ser sempre do contra. Agora arranja-te.
– Baah, deixa lá, eu pago-lhe um jantar e pronto, não se fala mais nisso.
– E depois queixas-te que nunca tens dinheiro…
– Pois, e não tenho.
– Não sabes poupar!
– Pois não.

– Vá lá, não ponhas os pés em cima da mesa.
– Desculpa, tens razão.
– Dá-me um beijo.
– Porquê?
– Porque eu te estou a pedir
– Se calhar se me desses tu, eu respondia-te.
– Mas eu não chego aí.
– Eu podia dizer que a distância é a mesma, mas isso cansava-me ainda mais, pega lá…
– Agora já não quero.
– Quero eu.

– Estúpido!
– Obrigado.
– És mesmo parvo, magoaste-me!
– Eu só te dei um beijo!
– Deixa-me em paz!
– Deixo.

– Não sei…
– Eu sei.

– Vá, agora fica sossegado porque vai começar a segunda parte.
– Ah… finalmente um intervalo.
– O quê?
– Nada. Queres que apague a luz?
– Não, deixa estar, chega-te mais para o pé de mim. Dás-me um beijo?
– …
– Au, picaste-me… Olha o John Travolta!
– Pois é.
– São tão fixes estes serões contigo…
– Pois são… E contigo também.
– Hum?
– Ele ainda dança bem!
– Pois é.

– Para que é que foi isso?
– Porque gosto de ti.
– Mas ainda há 3 minutos eu estava muito longe para tu me dares um beijo!
– Pois…
– Pois.

– Parece que estou a beijar uma parede!
– Porque será?
– Estás a ver? Se eu não beijo é porque não beijo, quando beijo, não respondes!
– Claro! É tão raro que até fico aparvalhado!

– Vá dá-me lá um beijo…
– Outra vez?
– Não, desta vez a sério.
– Pega…
– Ai! Tens que cortar esse bigode ridículo. Picaste-me!
– Desculpa. Não te dou mais beijos.
– Podes dar.
– A sério? Obrigado!
– Oh.

– Ah, como nos damos bem!
– Até damos!
– Pois claro, muito bem!
– Estás a ser irónico, não estás?
– Hum… Deixa-me pensar…
– Estás.
– Estou?
– Lá estás tu armado em parvo!
– Gosto mesmo de ti.
– Gostas mesmo?
– Não.
– A sério?
– Não.

Ti         
30/05/2006