Carta de desapego

O tempo é-me muito barato.
Atiro-o por aí, sem razão, sem motivo, sem padrão sequer.
Dizem os sábios que quando as coisas nos saem do corpo,
têm mais valor.
Não têm.
Tudo o que me sai, sai do corpo.
O que sai da alma… isso sim, tem valor.
Mas eu não tenho profundidade, sou tudo o que se vê,
sou mais nada do que o que se vê.
Uma cigana quiromante disse que as linhas da minha mão
são apenas linhas, revelam nada.

Não tenho segundas intenções,
mas não tenho intenções.
Tenho a espessura de uma folha de papel
Sou sem nada, desalmado.

Escrevo-te assim porque, ainda que não tendo qualquer direito ou influência sobre ti, quero retirar-te qualquer peso que possa entravar, por menor que seja, a tua procura por felicidade.

És boa, das que desequilibram o mundo para o lado da esperança e da Alegria.
Só de imaginar os teus olhos abertos para os meus, fico com vontades, esperanças, planos para conquistar o mundo. Mas depois imagino-os a olhar os meus e vejo neles a desilusão de te falhar.
Não consigo ser responsável pela morte dessa Alegria.
Quero-te melhor do que o que terias perto de mim.

Agora, quando desisto de ti, descubro que a magreza que julgava do meu coração, pode implodir ainda mais.
Já não sou fino, plano, sou só um ponto.
Um ponto não pode ter nada a dizer.

Um dia…

Um dia
vou ser estupidamente feliz, vais ver!

não só durante um dia, mas
consistentemente feliz,
irremediavelmente feliz,
ininterruptamente feliz.

nesse dia vou ser alto,
vou ser belo,
vou inspirar confiança
e vão querer dizer-me olá só por ser eu

Nesse dia vou colher um ramo de rosas
ou de tulipas
ou, se calhar, flores silvestres
depois vou atá-las à cintura, num molho
como se fosse uma espada
e quando parar à tua porta
não vai ser preciso tocar.
O perfume da única flor que reste,
encontrará o teu nariz adormecido
e assim que a desembainhar
virás colhê-la da minha mão
, ansiosa por te abraçar,
e depois desse abraço…

depois,
não sei,
mais nada
por isso
ser tudo.

Vânia, Outubro de 2013

9 minutos

Espero que esta seja a última carta de Amor que te escrevo.

A vida é engraçada!
Já achei que o nosso Amor só existia na minha imaginação,
já achei que nem sabes que existo,
já achei que podíamos ficar juntos para sempre,
já estive a um centímetro de te dizer do meu Amor.
Já achei tudo sobre ti e sobre nós, e às vezes tudo ao mesmo tempo.

Não deixei de te amar, nem sei se alguma vez deixarei, mas acho que finalmente me resignei a viver-te ao longe.
De hoje em diante vou deixar-me viver sem esperança de que alguma vez sejas minha.
Honestamente, se eu nos olhar sem a distorção poética do Amor, terei que reconhecer que nunca me soubeste perto e, apesar de estar sempre na tua sombra, também sempre estive escondido pelo medo de não te merecer.

Há tristeza em deixar-te ir,
aquela tristeza de saber que tem que ser, mas ainda assim não querer
a tristeza do frio
mas também há a liberdade de poder Amar-te sem desejo. Os sábios que dizem que só esse é o verdadeiro Amor, mas há algo em mim que não te quer amar como a Deus ou às crianças.
Esse bocado de mim quer-te mulher, quer a tua pele e o teu cabelo a respirar por perto. É essa parte que acaba hoje. É hoje que desisto de te querer e passo só a Amar-te.
O Sábio diz que só isso importa… mas eu não sou sábio.

Deseja-me sorte, vou precisar.

Setembro 2016

Um anjo perdido…

O dia tinha sido grande e o trabalho mais que muito, mas cumprido com orgulho e competência.
Talvez por isso, o rapaz saía nesse dia com a leveza da sensação do dever cumprido.

Fechou a loja à chave e depois de um último olhar à fachada encaminhou-se rua abaixo com o pescoço bem enterrado entre os ombros. Não havia memória de um Inverno tão frio e aquela noite era especialmente rigorosa.
Virava a primeira esquina ao fundo da rua quando evitou por pouco o choque com um anjo perdido.
Soube no instante em que viu aqueles olhos, que aquele anjo precisava de segurança. Pensou dar-lhe um abraço, quente como são todos os que dão os corações apaixonados, mas as suas pernas com medo de fraquejar, fugiram a correr. Como um louco hesitante voltou veloz. O rapaz sabia que os anjos conseguem sentir mesmo a mais pequena porção de amor, e por isso tinha medo que o anjo fugisse, quando percebesse que o amava.

Os olhos de um anjo são, por si só, um fenómeno impressionante e o rapaz tentava evitar olhá-los mais tempo do que o necessário. Aquele Anjo tinha o olhar mais perdido que alguma vez tinha visto – parecia que tinha sido abandonado pelo mundo inteiro. o rapaz sentiu-se mais fraco do que alguma vez antes sentira, provavelmente porque o vácuo que o anjo tinha, dentro de si parecia sugar tudo nele.

O anjo disse não saber porque é que ali estava e o rapaz reconheceu que ao contrário do que era habitual não conseguia pensar com clareza.

Quando correu e se afastou alguns metros do anjo, pôde de novo pensar e assim soube que tinha que o levar de volta a casa, naquele lugar entre as nuvens e o infinito. O anjo, que tinha permanecido imóvel, acedeu e continuou atordoado durante todo o caminho. Quando finalmente chegaram ao crepúsculo, que é o lugar até onde o rapaz podia ir, disseram-se adeus e foram-se.

O anjo nunca mais pensou no rapaz, mas o rapaz desde esse dia que vagueia pelas ruas à procura de olhares perdidos, sem suspeitar que ele próprio tem um olhar assim. Não é anjo, é só rapaz, mas passa tanto tempo no ar, que não é assim tão diferente dos anjos… Mas que sei eu? Sou só Deus e de coisas os Deuses não percebem nada.

Querer (ou respirar)

Querer respirar é das coisas mais intensas da vida.
como sempre tudo o que é mais intenso é também curriqueiro
A vontade de ar depois dele faltar é das coisas mais fortes que pode acontecer a um ser humano.

Um segredo para saber viver é saber respirar.

O mestre disse-me à pouco tempo:
“Quando a vida te estiver a faltar, mergulha. Fica lá até não poderes mais.
Há dois resultados possíveis depois disto e em nenhum deles te faltará vida.”