Um anjo perdido…

O dia tinha sido grande e o trabalho mais que muito, mas cumprido com orgulho e competência.
Talvez por isso, o rapaz saía nesse dia com a leveza da sensação do dever cumprido.

Fechou a loja à chave e depois de um último olhar à fachada encaminhou-se rua abaixo com o pescoço bem enterrado entre os ombros. Não havia memória de um Inverno tão frio e aquela noite era especialmente rigorosa.
Virava a primeira esquina ao fundo da rua quando evitou por pouco o choque com um anjo perdido.
Soube no instante em que viu aqueles olhos, que aquele anjo precisava de segurança. Pensou dar-lhe um abraço, quente como são todos os que dão os corações apaixonados, mas as suas pernas com medo de fraquejar, fugiram a correr. Como um louco hesitante voltou veloz. O rapaz sabia que os anjos conseguem sentir mesmo a mais pequena porção de amor, e por isso tinha medo que o anjo fugisse, quando percebesse que o amava.

Os olhos de um anjo são, por si só, um fenómeno impressionante e o rapaz tentava evitar olhá-los mais tempo do que o necessário. Aquele Anjo tinha o olhar mais perdido que alguma vez tinha visto – parecia que tinha sido abandonado pelo mundo inteiro. o rapaz sentiu-se mais fraco do que alguma vez antes sentira, provavelmente porque o vácuo que o anjo tinha, dentro de si parecia sugar tudo nele.

O anjo disse não saber porque é que ali estava e o rapaz reconheceu que ao contrário do que era habitual não conseguia pensar com clareza.

Quando correu e se afastou alguns metros do anjo, pôde de novo pensar e assim soube que tinha que o levar de volta a casa, naquele lugar entre as nuvens e o infinito. O anjo, que tinha permanecido imóvel, acedeu e continuou atordoado durante todo o caminho. Quando finalmente chegaram ao crepúsculo, que é o lugar até onde o rapaz podia ir, disseram-se adeus e foram-se.

O anjo nunca mais pensou no rapaz, mas o rapaz desde esse dia que vagueia pelas ruas à procura de olhares perdidos, sem suspeitar que ele próprio tem um olhar assim. Não é anjo, é só rapaz, mas passa tanto tempo no ar, que não é assim tão diferente dos anjos… Mas que sei eu? Sou só Deus e de coisas os Deuses não percebem nada.

Querer (ou respirar)

Querer respirar é das coisas mais intensas da vida.
como sempre tudo o que é mais intenso é também curriqueiro
A vontade de ar depois dele faltar é das coisas mais fortes que pode acontecer a um ser humano.

Um segredo para saber viver é saber respirar.

O mestre disse-me à pouco tempo:
“Quando a vida te estiver a faltar, mergulha. Fica lá até não poderes mais.
Há dois resultados possíveis depois disto e em nenhum deles te faltará vida.”

Sol

Sol:
não sabes disto,
mas quando penso em histórias de amores encantados imagino-te sempre como a princesa.
Sempre, sempre, sempre gostei de ti.
Não sei se é Amor, porque o Amor para mim és tu.
Há quem diga que o Amor é um conceito, ou um sentimento, eu acho que é o teu abraço, é o teu cabelo e o emaranhar-me nele, é todo, tudo tu.
Há porventura cabelos mais bonitos que os teus, e abraços tão quentes como os nossos, mas eu estou a falar de Amor. Haverá talvez gesto mais perfeito do que o teu sorriso, mas eu estou a falar de Amor, e Amor é tudo e só o que vem de ti.

Nunca te vou dizer quanto te quero. Sou pequeno, não te mereço.
Uma borboleta não pode nunca aproximar-se do Sol, mas não é por isso que O ama menos.
O meu Sol não se chama assim. É o teu nome que me alumia e é a ele que rezo todos os dias, para que te proteja e sejas feliz.
Não saberás quem sou, mas terás sempre o meu Amor.

o dia que ficou sem coragem

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O dia em que ficou sem coragem
foi porque a luz faltou.
Assim. Sem mais, nem menos, sem espaço… margem
de repente simplesmente se apagou
Teve dois segundos de pânico,
brevíssimos momentos de ansiedade
mas de súbito acabou, ficou mecânico
desprovido de humanidade.

Dada a desimportânia de tudo.
todos os dias eram iguais todo o dia,
dizia palavras, mas parecia-se mudo
até as coisas inesperadas ele já sabia
Tudo passou a ser indiferente
cabelos compridos,
unhas cortadas rente,
rezas, gemidos
Tudo foi a mesma coisa desde aí
deixou de haver escalas
todas as notas eram mi
todos fizeram as malas,
e viajaram sem bagagem
enfiaram os pertences em barcos
e ficaram a observar da margem
como se ficassem com as setas e atirassem os arcos
como se depois, por não terem bens materiais,
tudo ficasse saldado:
– direitos iguais para os animais
– paridade entre punk e fado
– fim do crédito mal-parado
– distribuição equitativa do mau-olhado

Mas a grande revolução
foi o fim do cozido à portuguesa
Passou a fazer-se tudo à mão
rendas de bilros com malha chinesa
O comunismo foi apanhado a fundir-se com a Igreja
e quando pensavam que se pariria o anti-cristo
O resultado foi gases numa senhora de Beja
cujo ganha-pão eram estatuetas de xisto
tomou um comprimido e acabou-se o problema
Descobriu-se a Santa Igreja Comunicrática
tudo passou a ser culpa do sistema
e da electricidade estática
Todas as semanas se votava a existência de Deus
e quando havia patrocínio
a chuva tinha gás e açúcar e vinha mesmo dos céus
tudo era inovação… ou declínio

Daqui donde ele se olha as coisas não mudaram assim tanto
é a mesma alegria, a inveja, o queixume, o canto
morre-se e nasce-se das mesmas maneiras de sempre
esgota-se a morte, vem a vida
a vida passa num repente
e quando a olhamos foi colhida
não por aquele esqueleto com foice e andrajos negros meio-desfeitos
a vida dá o que tem e acaba, assim sem mais nada
e por mais largas avenidas ou caminhos estreitos
ter-se-á que seguir um dia a pé
pela mesma estrada
Importa pouco se chega de camião ou sapatilhas
não interessam os interesses
se está bem de saúde ou doem as virilhas
se fora sovina ou dera benesses

Importa o que importa
mas saber o que é isso
é tudo.

Ti, 26-01-2010

Raro

– Tens noção que não és muito vulgar, não tens?
– Não sei…
– Bom, mas então digo-to eu. És realmente invulgar.
– Achas?
– Sim
– Seja. Tens ido ao circo ultimamente?
– Hum?!
– Circo! Aquilo que tem malabaristas, palhaços, mágicos, …
– Não, há alguns anos que não vou…
– Queres ir? … Comigo?
– Mesmo tu, que não vives neste mundo, já deves ter percebido que quando olho para ti me saem coraçõezinhos pelos olhos! Portanto também não te deve ser difícil calcular que basta dizeres “comigo” para tudo o resto ser irrelevante.
– O que é que queres dizer com “tu, que não vives neste mundo”?
– Sabes bem
– Não sei não!
– És distante, aluada, não lês jornais, não vês televisão, não ouves rádio, entras em transe no meio de multidões e parece que tudo te é novo!
– Hum…
– és misteriosa, incompreensível, despreocupada, carinhosa, e quando dizes palavras elas não parecem palavras… Parece música!
– Não percebo nada do que estás a dizer!
– ou não queres perceber…
– Se calhar…
– Vês?
– O quê?
– És incrível!