Já sei amanhã

Sei tudo pela manhã
tivesse eu medo e seria viva
mas sei tudo e nada me motiva
sei tudo o que não pode ser amanhã

Sei quando me vou irritar
com as mesmas coisas de hoje
a mesma coisa sempre, até que inoje
o ciclo repetitivo nunca vai passar

como um comboio infalível
que passa em todas as estações
com uma precisão incrível

todos os dias ilusões
um vazio indizível
oco em vez de corações

Vânia 8:30, 17 Julho 2014

 

Para uma boa história.

Para uma história nos prender não é preciso ser boa. Para prender apenas precisa de tempo.
Há uma razão para preferirmos o que nos está próximo; a proximidade.
Gostamos do que gostamos porque é o que conhecemos.
Tendemos a achar que temos os amigos que escolhemos, os namorados que quisemos,… A verdade é que vamos agarrando o que nos passa à frente. No máximo temos a decisão de escolher o que agarrar, mas raramente temos poder para definir o que passa por nós.
O amor não tem nada que ver com isto. Para quem tem filhos e já experimentou o amor que se tem por um filho, que é, pelo menos para mim, a forma mais poderosa de amor que já experienciei, não importa se são programados ou não, não interessa se são desejados, a verdade é que amamos-los incondicionalmente. Há quem diga que isto acontece com outros tipos de amor, tenho a certeza que sim, mas o que conheço é este.
Quando os filhos fazem asneiras, ou quando não estudam, ou quando são simplesmente maus, a culpa nunca é deles. É nossa que não os soubemos educar bem, é dos amigos que são um bando de atrasados mentais, é dos pais dos amigos que deviam ser açoitados em praça pública, é das más companhias, é da sociedade em geral que não tem capacidade para perceber aquela sensibilidade que os leva a fazer grafitis na porta do vizinho, que os obriga a bater nos colegas de escola, que os faz ir para ao INEM na queima das fitas. A culpa é de tudo menos dos nossos amados filhos.
Conheço uma pessoa que diz que o facto de amarmos mais os nossos filhos, maridos, irmãos dos que todas as outras pessoas é uma falha de caráter! Um destes dias peço-lhe para escrever aqui sobre isso (escreves Ti?). Se calhar tem razão, devíamos amar tudo da mesma maneira…
O que importa para aqui é que, nas histórias, tal como no amor, prendemos-nos ao que nos está mais próximo e não, contrariamente ao que poderíamos pensar, ao que nos atrai “naturalmente”.
Proponho que façam como eu que passei da TV Guia para jornais diários, passado algum tempo só lia as colunas de opinião, depois descobri autores maravilhosos e com eles os livros. Um dia destes estava chateada com um colunista que escreveu uma qualquer barbaridade e decidi voltar às revistas, depois de alguns anos de saudades. Descobri que já não gosto de revistas e por alguns minutos achei que era melhor por isso, mas na realidade foi apenas um surto de snobismo que me leva às vezes a achar que os romances são melhores do que a banda desenhada. A verdade é que me afastei das revistas, e por isso gosto menos delas. Mas não é a distância que as tornou piores, ou os romances melhores, só mudou a minha perspectiva.
Portanto escolhamos o que é mais nobre porque isso fará de nós mais nobres, não melhores, mas mais nobres.

Canalha!

Deixa-me ser tua como já
não me faças esperar
já se pode contar em anos o que esperei por ti
e os cremes não aguentam muito mais
as rugas de te esperar

Quero o teu quentinho
e o desconforto de barba por fazer
e o peito a arder dos picos dela
Quero passar um dia inteiro a lembrar-me de ti por ter os lábios a arder
de saudade e de irritação

Deixa-me cozinhar-te
em banho-maria
Maria como o que me chamas por te lembrar a tua mãe
não te quero filho,
quero-te filho da mãe
Quero chorar por seres súcio
não quero chorar por não me seres nada

Vem.
já.
tenho a água a correr e a espuma a crescer
a porta está aberta,
não precisas de bater
Não ligues a luz, deixa
não tires a roupa, comicha
não fales, não cantes, flutua
talvez eu esteja vestida, … talvez

e se de madrugada quiseres partir
parte tudo!
mas parte mudo
não digas nada, desaparece
se não gostas de mim vai eu não posso, eu de mim não sai

e essas unhas que levas cravadas nas costas
deixa-as ficar, não devolvas
Vou precisar de novas, para cantar a tua acédia
ou então calo-me por cobardia
e peço-tas de volta

e choro, aquele choro que não podes resistir
assim terás que me acudir
e começa tudo outra vez

Seu canalha! Deus me valha!

Elo

Tenho saudades tuas, do teu sorriso paciente, do teu ombro quente, onde poisar a cabeça.

Tenho saudade de ter coração, em vez de escombro. sinto falta da oração, como a que fazias todas as manhãs: a oração ao croissant, a reza do São Chocolate, ou a ladaínha da Santa Compota de Morangos Silvestres. Tenho saudades de pintar paredes contigo, com marcadores e lápis de cera, tenho saudades de fazermos de estátuas…

assim

de repente. Tenho saudades de receber visitas e lhes servir gelado de bróculos, ou então aqueles rissóis de chocolate, que adorávamos ver escorrer pelos lábios ultrajados dos convidados, (que pensavam ser de marisco)!

tenho saudades do futuro que tínhamos, com 5 filhos, viagens foleiras por não termos dinheiro para mais e muito mais felicidade do que o seria humanamente possível,
e a falta da tua perna quente a procurar-me na cama!

Ah! Com mil diabos, como me fazem falta os três mil elásticos de cabelos que deixavas pela casa toda

e os nomes que me chamaste quando lavei a tua camisa favorita junto com as minhas meias coloridas, mudando-lhe a cor para sempre!

acho que sou superficial
só gosto de ti por coisas
não te mereço…

d’ Educar

Trabalhar o dobro, para ganhar mais e poder finalmente dar um videojogo à criança, não é amar.
Amar não é pedir para portar bem e ignorar se isso não acontecer.
Amar é fazer o melhor para o outro, mesmo contra a sua vontade.
Mas cuidado, a liberdade é um direito primordial! Por isso é que um bom par de estalos quando há uma birra, é muito mais amor do que um “Cala-te lá que eu dou-te um telemóvel da Hello Kitty”!

Podre

Nós eramos uma espécie de vegetais, viviamos demolhados em antidepressivos e calmantes, que nos mantinham em permanente sonolência despreocupada. Eramos um casal completamente disfuncional, mas não se notava porque os outros eram iguais.
Tivemos um filho e isso parecia que nos ia dar a energia que faltava, mas na realidade as noites sem dormir aumentaram a dose de calmantes ao invés de a reduzir.
Uma noite, enquanto a nossa filha, quase amada, dormia entre nós; aconteceu.
A nossa filha era “quase amada” porque em tudo o que faziamos era como se fôssemos zombies, até o amar era “mais ou menos”.
Naquela noite, como em quase todas, estavamos encharcados em medicamentos. Um de nós, não sabemos qual, virou-se na cama e com o peso dos nossos corpos disformes e gordos asfixiamos o único raio de luz que tinhamos na vida.
Assim, tal e qual. É assim que conto, porque foi assim que se passou.
Gostava de dizer que fiqueio desesperado e que atirei com coisas pelo ar, ou que fiquei catatónico durante meses.
Não. Fiquei na mesma, incapaz de sentir o que quer que seja. A minha mulher não sei, foi embora uma semana depois.
Sempre que falo sobre isto, há qualquer coisa dentro de mim que começa a doer, mas tomo um comprimido e vinte minutos depois começo a ficar melhor.
Não me rio há anos, mas também não choro.
É isto.