Pérolas do engate

O gajo aproxima-se, meio de lado, como quem não quer nada e diz de um fôlego só:

The Temptations Ed_Sullivan_Show (1969)“Eu tenho Sol num dia de chuva,
quando está frio lá fora para mim é Agosto
e o que é que me faz sentir assim?
Tu! A minha miúda.”

Não fosse eu fã dos “The Temptations” e até poderia não ter reconhecido o “I Got Sunshine“.
E assim se transforma um clássico intemporal numa frase de engate do piorio.

Um dia…

Um dia
vou ser estupidamente feliz, vais ver!

não só durante um dia, mas
consistentemente feliz,
irremediavelmente feliz,
ininterruptamente feliz.

nesse dia vou ser alto,
vou ser belo,
vou inspirar confiança
e vão querer dizer-me olá só por ser eu

Nesse dia vou colher um ramo de rosas
ou de tulipas
ou, se calhar, flores silvestres
depois vou atá-las à cintura, num molho
como se fosse uma espada
e quando parar à tua porta
não vai ser preciso tocar.
O perfume da única flor que reste,
encontrará o teu nariz adormecido
e assim que a desembainhar
virás colhê-la da minha mão
, ansiosa por te abraçar,
e depois desse abraço…

depois,
não sei,
mais nada
por isso
ser tudo.

Vânia, Outubro de 2013

Pecável

apagarAs minhas amigas dizem todas que és impecável!
São cegas!
Não vêm como dá vontade de morder o carnudo dos teus lábios?
Não percebem como apetece perder os dedos no desalinho do teu cabelo?
Não sabem que até a aspereza da barba por desfazer dá mais charme ao beijo?
És tudo menos impecável.
Essa delicadeza de abrir portas, tem também arrancar de camisas sem desapertar,
a carícia de mão na mão, tem também empurrar contra a parede enquanto o pescoço é mordido,
o olhar terno e afagar do cabelo tem também espetar de unhas e marcas de tesão.
Impecável?!

Nada disso, és exactamente o oposto!

Já sei amanhã

Sei tudo pela manhã
tivesse eu medo e seria viva
mas sei tudo e nada me motiva
sei tudo o que não pode ser amanhã

Sei quando me vou irritar
com as mesmas coisas de hoje
a mesma coisa sempre, até que inoje
o ciclo repetitivo nunca vai passar

como um comboio infalível
que passa em todas as estações
com uma precisão incrível

todos os dias ilusões
um vazio indizível
oco em vez de corações

Vânia 8:30, 17 Julho 2014

 

Para uma boa história.

Para uma história nos prender não é preciso ser boa. Para prender apenas precisa de tempo.
Há uma razão para preferirmos o que nos está próximo; a proximidade.
Gostamos do que gostamos porque é o que conhecemos.
Tendemos a achar que temos os amigos que escolhemos, os namorados que quisemos,… A verdade é que vamos agarrando o que nos passa à frente. No máximo temos a decisão de escolher o que agarrar, mas raramente temos poder para definir o que passa por nós.
O amor não tem nada que ver com isto. Para quem tem filhos e já experimentou o amor que se tem por um filho, que é, pelo menos para mim, a forma mais poderosa de amor que já experienciei, não importa se são programados ou não, não interessa se são desejados, a verdade é que amamos-los incondicionalmente. Há quem diga que isto acontece com outros tipos de amor, tenho a certeza que sim, mas o que conheço é este.
Quando os filhos fazem asneiras, ou quando não estudam, ou quando são simplesmente maus, a culpa nunca é deles. É nossa que não os soubemos educar bem, é dos amigos que são um bando de atrasados mentais, é dos pais dos amigos que deviam ser açoitados em praça pública, é das más companhias, é da sociedade em geral que não tem capacidade para perceber aquela sensibilidade que os leva a fazer grafitis na porta do vizinho, que os obriga a bater nos colegas de escola, que os faz ir para ao INEM na queima das fitas. A culpa é de tudo menos dos nossos amados filhos.
Conheço uma pessoa que diz que o facto de amarmos mais os nossos filhos, maridos, irmãos dos que todas as outras pessoas é uma falha de caráter! Um destes dias peço-lhe para escrever aqui sobre isso (escreves Ti?). Se calhar tem razão, devíamos amar tudo da mesma maneira…
O que importa para aqui é que, nas histórias, tal como no amor, prendemos-nos ao que nos está mais próximo e não, contrariamente ao que poderíamos pensar, ao que nos atrai “naturalmente”.
Proponho que façam como eu que passei da TV Guia para jornais diários, passado algum tempo só lia as colunas de opinião, depois descobri autores maravilhosos e com eles os livros. Um dia destes estava chateada com um colunista que escreveu uma qualquer barbaridade e decidi voltar às revistas, depois de alguns anos de saudades. Descobri que já não gosto de revistas e por alguns minutos achei que era melhor por isso, mas na realidade foi apenas um surto de snobismo que me leva às vezes a achar que os romances são melhores do que a banda desenhada. A verdade é que me afastei das revistas, e por isso gosto menos delas. Mas não é a distância que as tornou piores, ou os romances melhores, só mudou a minha perspectiva.
Portanto escolhamos o que é mais nobre porque isso fará de nós mais nobres, não melhores, mas mais nobres.