porcaria (ou consideração em Si menor)

Si menor2Quero agradecer-lhe,
tenho toda a consideração do mundo por si,
que me lê
mas isto por si só, não lhe dá mérito,
poderá é dar-se o caso do mérito
ser motivo de consideração

mas considerando que
a consideração que lhe tenho
deve-se apenas ao facto de me estar a ler
e por isso me massajar o ego,
tenho que concluir que o que tenho por si
não é verdadeiro,
é só agradecimento por me reconhecer.

Mas se me reconhece por esta…
porcaria
descubro que não tenho qualquer consideração por si
porque isto que aqui lê
não é mais que perda de tempo, não tem valor

E, se V. Exa., gasta olhos e tempo e energia
a ler esta porcaria
não é dotada de qualquer mérito,
e merece de mim, portanto,
desprezo

Termino este agradecimento,
retirando-o
e desejando-lhe as melhoras!

Você é um ser desprezível!
Não por ser vil ou sequer desagradável,
apenas por não ter utilidade nenhuma
e, por isso, pode
e deve
ser desprezado.

Silêncio, fumo, barulho e nada..

O barulho correu frenético até se alojar, ensurdecedor, no fundo dos tímpanos. Não dizia nada, tomava apenas o seu lugar e fazia-o com a veemência de um Todo-Poderoso.

O fumo continuava perdido, fora do cigarro, espraiava-se lento pela sala claustrofóbica, tornando-a pesada e doentia.
Os olhos raiados de sangue queriam jorrar das órbitas, mas os nervos matinham-nos agarrados ao rosto esburacado de bexigas.
O tempo passava num ritmo cardíaco sem crença e compassado com música decadente que, entornada sem vontade dum rádio a pilhas, embalava a densidade do ambiente num pêndulo de inutilidade.

Foi assim que vivo.
Será assim que nasci.
É assim que morri.

de chorar

Há qualquer coisa nas vitórias, no reconhecimento que me faz chorar.
Nunca choro com tristezas (quando digo nunca, quero mesmo dizer nunca), mas quando oiço aplausos sinceros, ou vitórias verdadeiras há um nó que me ata a garganta e, às vezes os olhos marejam-se-me.
Emociona-me a Alegria… A tristeza? Isso passa!

Hoje vi a Jessica Augusto a cortar a meta com uma bandeira de um país que podia ser o meu e não me consegui conter, mesmo estando num lugar público cheio de desconhecidos incomodados por ver um homem velho como eu a chorar. Obrigado Jessica, fizeste de mim humano outra vez!

Dedicatória

És um clichê, um chavão, um loop, uma repetição infinita de coisa nenhuma!
Todo o teu brilhantismo e fama deve-se à impecabilidade inútil da tua reflexão na lisura oca dos que te rodeiam. Pensas que pensas, mas esse papaguear que vem do vão da tua vaziez tem em si nada. As ideias espectaculares que ejaculas dessa tua (de)mente são novidades e até inovações, mas só para os excretos satélites que te fazem pensar útil. És um cepo carcomido pela traça, um subproduto de baldo. A tua função no mundo é destruir a lógica, fazê-lo perceber que nada é possível e o contrário.

Amo-te assim!

Se não percebes que isto é o verdadeiro amor, foda-se!

 

Adão Demo, Maio 2014

Caca

Amor é caca!

Veio de mansinho, com candura e olhos brilhantes
deu carinho, companhia e toques de pele
nunca pediu nada,
nem levou…
O Amor apareceu porque lhe apeteceu
e ficou tudo luz,
desexistiu o breu

Não sei quem foi a mãe que o pariu e também nunca o vi com nada seu.
Instalou-se quando quis, e sem ser convidado, o filho dum cabrão.
Parecia bom, parecia doce, parecia leve, parecia quente, parecia mesmo que me queria – a mim especificamente. Mas não passava de um porco, frio e calculista, pesado e sem razão, depravado e egoísta.
Envolveu-me o músculo pulsante, e a princípio ajudou-o a bater, depois desatou a apertá-lo com fúrias aleatórias… e o que era sonho, abraço e gargalhada, ficou em grito, escuro e mais nada.
por fim retirou-se, depois de o sugar por inteiro, deixando-o mirrado, abafado, e quase morto.

O amor – com minúscula, como deve ser – é um arrebatador, sensual e brilhante cabrão!
Sei que não vai ter coragem de voltar a aparecer-me pela frente, mas se esse defeco de vaca leprosa pensar sequer em passar por perto, cumprirei com gosto a pena perpétua – que já cumpro por culpa sua – de carrasco do Amor, do amor, ou do môr ou seja lá que nome fôr.

Adão Demo,  Dez 2008