Silêncio, fumo, barulho e nada..

O barulho correu frenético até se alojar, ensurdecedor, no fundo dos tímpanos. Não dizia nada, tomava apenas o seu lugar e fazia-o com a veemência de um Todo-Poderoso.

O fumo continuava perdido, fora do cigarro, espraiava-se lento pela sala claustrofóbica, tornando-a pesada e doentia.
Os olhos raiados de sangue queriam jorrar das órbitas, mas os nervos matinham-nos agarrados ao rosto esburacado de bexigas.
O tempo passava num ritmo cardíaco sem crença e compassado com música decadente que, entornada sem vontade dum rádio a pilhas, embalava a densidade do ambiente num pêndulo de inutilidade.

Foi assim que vivo.
Será assim que nasci.
É assim que morri.

de chorar

Há qualquer coisa nas vitórias, no reconhecimento que me faz chorar.
Nunca choro com tristezas (quando digo nunca, quero mesmo dizer nunca), mas quando oiço aplausos sinceros, ou vitórias verdadeiras há um nó que me ata a garganta e, às vezes os olhos marejam-se-me.
Emociona-me a Alegria… A tristeza? Isso passa!

Hoje vi a Jessica Augusto a cortar a meta com uma bandeira de um país que podia ser o meu e não me consegui conter, mesmo estando num lugar público cheio de desconhecidos incomodados por ver um homem velho como eu a chorar. Obrigado Jessica, fizeste de mim humano outra vez!

Dedicatória

És um clichê, um chavão, um loop, uma repetição infinita de coisa nenhuma!
Todo o teu brilhantismo e fama deve-se à impecabilidade inútil da tua reflexão na lisura oca dos que te rodeiam. Pensas que pensas, mas esse papaguear que vem do vão da tua vaziez tem em si nada. As ideias espectaculares que ejaculas dessa tua (de)mente são novidades e até inovações, mas só para os excretos satélites que te fazem pensar útil. És um cepo carcomido pela traça, um subproduto de baldo. A tua função no mundo é destruir a lógica, fazê-lo perceber que nada é possível e o contrário.

Amo-te assim!

Se não percebes que isto é o verdadeiro amor, foda-se!

 

Adão Demo, Maio 2014

Caca

Amor é caca!

Veio de mansinho, com candura e olhos brilhantes
deu carinho, companhia e toques de pele
nunca pediu nada,
nem levou…
O Amor apareceu porque lhe apeteceu
e ficou tudo luz,
desexistiu o breu

Não sei quem foi a mãe que o pariu e também nunca o vi com nada seu.
Instalou-se quando quis, e sem ser convidado, o filho dum cabrão.
Parecia bom, parecia doce, parecia leve, parecia quente, parecia mesmo que me queria – a mim especificamente. Mas não passava de um porco, frio e calculista, pesado e sem razão, depravado e egoísta.
Envolveu-me o músculo pulsante, e a princípio ajudou-o a bater, depois desatou a apertá-lo com fúrias aleatórias… e o que era sonho, abraço e gargalhada, ficou em grito, escuro e mais nada.
por fim retirou-se, depois de o sugar por inteiro, deixando-o mirrado, abafado, e quase morto.

O amor – com minúscula, como deve ser – é um arrebatador, sensual e brilhante cabrão!
Sei que não vai ter coragem de voltar a aparecer-me pela frente, mas se esse defeco de vaca leprosa pensar sequer em passar por perto, cumprirei com gosto a pena perpétua – que já cumpro por culpa sua – de carrasco do Amor, do amor, ou do môr ou seja lá que nome fôr.

Adão Demo,  Dez 2008

Sociedade sem classes!

Acho que finalmente nos encaminhamos para uma sociedade perfeita!
Depois do anúncio dos novos escalões de IRS vamos tornar-nos na primeira sociedade sem classes! Os ricos fugirão do país, os remediados passarão a ser pobres e os pobres sê-lo-ão, como sempre!
Assim, podemos finalmente ter uma sociedade igualitária:

  • todos terão créditos impagáveis;
  • todos terão tempo livre de sobra
  • as famílias estarão muito mais unidas, porque não haverá dinheiro para os filhos saírem de casa dos pais
  • as artes estarão melhores do que nunca, porque passaremos todo o dia a tocar guitarra
  • e até os dermatologistas terão mais clientela, com tanta “coçação”