Há fumo sem fogo

smokeSócrates – o ex primeiro ministro português – continua sem acusação.
O homem esteve preso 1 ano e de que é que o acusaram? De nada.
Desenganem-se os que pensam que nutro qualquer simpatia pelo senhor, na realidade sempre me inspirou alguma desconfiança, mas eu sei que a minha desconfiança se baseia em noticias e comentários inconsequentes, que não poderão nunca servir para definir se alguém é bom ou mau.
Para os responsáveis pela justiça parece que não é necessário nada de especial para se privar alguém do direito à liberdade!
Em conversas de café, também eu já condenei José Socrates, mas nessas mesmas conversas também chamo camelo ao Cristiano Ronaldo quando falha um penalti e na jogada a seguir faço-lhe justiça dizendo que é o melhor jogador de sempre. Mas isto são conversas de café!
Se um ex-primeiro-ministro, por mais irritante que possa ser, pode ser condenado a 1 ano de prisão sem condenção nenhuma, imagine-se onde é que acaba o poder discricionário dos responsáveis justiceiros do país.
Há uma única consolação nesta in-justiça toda: Sócrates também é um dos responsáveis pela justiça que temos.

Currículo versus Resultados

O que é que fazes?
– Sou programador… Isto é… Em termos de funções sou programador, em termos de formação sou trolha!
– Como? Explica lá isso!
– Eu tenho o 10º ano incompleto porque sempre gostei de programação e comecei a trabalhar muito cedo para uma empresa de programação.
– Percebo! Mas então deves ser um craque nisso!
– Sou bom, mas há alguns melhores.
– Esse pessoal da informática é muito bem pago, não é?
– Os outro não posso falar, mas quanto a mim… Ganho cerca de um terço do que ganham todos os outros programadores seniores…
– Porquê?
images– Porque não sou engenheiro e, apesar de ser chefe de equipa e ter vários engenheiros sob minha alçada, as tabelas salariais dizem que eu sou pago muito abaixo deles.
– Hum…
– As tabelas decidem que serás sempre pago de acordo com a formação, não com a competência, ou sequer com a riqueza gerada.
– Mas tu podes falar com a direção da empresa para te pagarem melhor, não podes?
– Sim, poderia, mas provavelmente dir-me-iam que não, porque é muito fácil arranjar pessoas com a mesma formação que eu dispostas a trabalhar por menos do que eu! Apesar de não terem as mesmas competências, o que importa é a formação, não a competência. Toda a gente liga mais ao currículo do que aos resultados.
– Isso não é lá muito justo…
– Pior do que isso é que não é nada eficaz!… Eventualmente um dia destes ficarei farto e dedico-me a coçar o escroto como metade dos meus colegas… Há aqui um homem que é responsável por 62% do lucro da empresa! Há 12 anos ele criou um software que aumentou de tal maneira os lucros que deviam pelo menos ter-lhe dado uma parte da empresa. No início andou todo entusiasmado e quase terminou outro software que teria tornado esta empresa líder, mas como todos lucraram menos ele, acabou por se acomodar e agora, o melhor activo desta empresa, ganha o mesmo que eu e não faz nada de útil há já alguns anos.

 

Dedicatória

És um clichê, um chavão, um loop, uma repetição infinita de coisa nenhuma!
Todo o teu brilhantismo e fama deve-se à impecabilidade inútil da tua reflexão na lisura oca dos que te rodeiam. Pensas que pensas, mas esse papaguear que vem do vão da tua vaziez tem em si nada. As ideias espectaculares que ejaculas dessa tua (de)mente são novidades e até inovações, mas só para os excretos satélites que te fazem pensar útil. És um cepo carcomido pela traça, um subproduto de baldo. A tua função no mundo é destruir a lógica, fazê-lo perceber que nada é possível e o contrário.

Amo-te assim!

Se não percebes que isto é o verdadeiro amor, foda-se!

 

Adão Demo, Maio 2014

da simplificação

Deus não é simplificável.
Alguns dizem que não é explicável e logo a seguir continuam o raciocínio tentando explicá-lo, de forma simples e compreensível! Isso é incompreensível!

Caca

Amor é caca!

Veio de mansinho, com candura e olhos brilhantes
deu carinho, companhia e toques de pele
nunca pediu nada,
nem levou…
O Amor apareceu porque lhe apeteceu
e ficou tudo luz,
desexistiu o breu

Não sei quem foi a mãe que o pariu e também nunca o vi com nada seu.
Instalou-se quando quis, e sem ser convidado, o filho dum cabrão.
Parecia bom, parecia doce, parecia leve, parecia quente, parecia mesmo que me queria – a mim especificamente. Mas não passava de um porco, frio e calculista, pesado e sem razão, depravado e egoísta.
Envolveu-me o músculo pulsante, e a princípio ajudou-o a bater, depois desatou a apertá-lo com fúrias aleatórias… e o que era sonho, abraço e gargalhada, ficou em grito, escuro e mais nada.
por fim retirou-se, depois de o sugar por inteiro, deixando-o mirrado, abafado, e quase morto.

O amor – com minúscula, como deve ser – é um arrebatador, sensual e brilhante cabrão!
Sei que não vai ter coragem de voltar a aparecer-me pela frente, mas se esse defeco de vaca leprosa pensar sequer em passar por perto, cumprirei com gosto a pena perpétua – que já cumpro por culpa sua – de carrasco do Amor, do amor, ou do môr ou seja lá que nome fôr.

Adão Demo,  Dez 2008

Deixou isto tudo a feder.

– Bom dia, peço desculpa por estar a incomodar – disse o homem que tinha ar de quem não tomava banho há várias semanas.
– Sim, diga! – respondeu o rapaz novo e impecavelmente penteado da loja de produtos Gourmet.
– Eu tenho Sida e estou com as defesas muito em baixo. Eu não sou nenhum animal, mas estou a dormir na rua, naquela loja abandonada ali mais abaixo…
– Sim, e o que é que pretende? – O rapaz estava visivelmente agastado com aquele maltrapilho!
– Calma que eu não lhe vou pedir que compre um edredão novo!
– Sim?
– O que eu queria era que, se me pudesse ajudar, me desse dinheiro para umas meias porque as minha ficaram ensopadas com o nevão durante a noite.
– Pois, mas aqui dentro da loja não podemos dar nada.
– Mas eu não lhe estou a pedir nada! Só quero trocar de meias porque estas estão ensopadas, já ficava contente se me desse as suas.
– Como já lhe disse não podemos dar nada aqui dentro.
O maltrapilho dirigiu-se para a saída.
– Muito obrigado, Deus o ajude. Eu não sou um animal!

Entretanto o patrão, que estivera atrás de um biombo o tempo todo, inspecciona a loja.

– O raio do pedinte deixou isto tudo a feder! Que porcaria de pivete!
O empregado começou lentamente a despir a farda.
– Samuel, onde é que pensa que vai, a sua hora de almoço é só daqui a 10 minutos!
– Vou-me embora.
– Está a brincar comigo?
– Despeço-me. Adeus!
Saiu a correr, a tempo ainda de apanhar o pedinte maltrapilho mais ao fundo da rua.

– Eh , eh! Eu não roubei nada! Sou uma bosta, mas não roubo!
– Calma homem, vinha só perguntar se já almoçou!
– Não almocei, nem jantei ontem! E hoje vou dormir outra vez a tremer como um cão. Mas eu não sou um animal!
– Então fazemos assim: Hoje almoça, janta e dorme em minha casa!
– Você é rabeta?
–  Ah, ah, ah , ah! Não, estou só a tentar ser gente.
– Está bem, comer aceito, mas dormir não.
– Você é que sabe! Mas também pode tomar um banho se quiser!
– Devo ter um cheiro a bedum que até mete nojo! Isso aceito!

Quem os visse descer a rua pensaria que seriam duas pessoas importantes, tal era a velocidade com que todos abriam caminho para que passassem.A realidade era que o pedinte fedia de tal modo que todos se afastavam.

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