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Espero que esta seja a última carta de Amor que te escrevo.

A vida é engraçada!
Já achei que o nosso Amor só existia na minha imaginação,
já achei que nem sabes que existo,
já achei que podíamos ficar juntos para sempre,
já estive a um centímetro de te dizer do meu Amor.
Já achei tudo sobre ti e sobre nós, e às vezes tudo ao mesmo tempo.

Não deixei de te amar, nem sei se alguma vez deixarei, mas acho que finalmente me resignei a viver-te ao longe.
De hoje em diante vou deixar-me viver sem esperança de que alguma vez sejas minha.
Honestamente, se eu nos olhar sem a distorção poética do Amor, terei que reconhecer que nunca me soubeste perto e, apesar de estar sempre na tua sombra, também sempre estive escondido pelo medo de não te merecer.

Há tristeza em deixar-te ir,
aquela tristeza de saber que tem que ser, mas ainda assim não querer
a tristeza do frio
mas também há a liberdade de poder Amar-te sem desejo. Os sábios que dizem que só esse é o verdadeiro Amor, mas há algo em mim que não te quer amar como a Deus ou às crianças.
Esse bocado de mim quer-te mulher, quer a tua pele e o teu cabelo a respirar por perto. É essa parte que acaba hoje. É hoje que desisto de te querer e passo só a Amar-te.
O Sábio diz que só isso importa… mas eu não sou sábio.

Deseja-me sorte, vou precisar.

Setembro 2016

Pão, feminino e masculino.

Há coisas mais importantes do que o pão,
mas só se saberá se houver,
quando falta é-se cão,
mas só se ainda houver noção de ser
Se não, serão fãs de nada
ignorantes convictos
Arquiduques da empada
Imperadores absolutos de pequenitos

a Ignorância,
dos primitivos que acham idólatra e idiota,
que os faz rezar a Árvores e Calhaus Sagrados,
é a mesma dos Cifrões, Cruzes, Estrelas e mais Calhaus

não há bons, nem maus,
há só bondade e ignorância
no lugar de corações, há paus
ego e Ego onde devia estar inteligência

O mundo é masculino,
mas não devia ser feminino,
tal como não devia ser só mar,
também não deve ser só terra
as mulheres, não têm a exclusividade do feminino
os grunhos não a têm do masculino
temos todos tudo
e quem quer ser só parte,
não é completo.

a mão que embala o berço

A mão que embala o berço é a mesma que agarra o chão para não partir,
é a que ampara o bebé e que apara a bofetada de ciúme.
a mãe que dá o seio de leite é a mesma que arranca pedaços de costas do amante
a mulher que dá e vê Deus, é a mulher que fornica com Ele

Aquele beijo por baixo do cabelo da nuca escondida
arrepia a espinha, pare vontades com vida
E a barba que arranha e dói e dá tesão,
é a que eriça cicatrizes de sins gritados não

começa por desexistir tudo o que é facto
depois nem isso, apaga-se a luz, toque e olfacto
tudo é sabor, mas do céu, não de língua
a carne funde-se e o universo míngua

A escuridão apaga-se,
e o vazio é coisa que se inala
O ar sufoca-se
até o silêncio se cala

O animal é parvo

O animal queria reconhecimento.
Trabalhava 16 horas por dia e ainda estudava mais 3. Ficava sem comer para ter dinheiro para comprar livros. Não tem amigos para conversar, nem amigas para apaixonar.

Pintou um quadro anónimo para não alimentar a sua própria vaidade, mas deram a vaidade a quem o descobriu, mesmo sem se revelar o autor. Depois escreveu um livro, mas ficou tão famoso que teve de mudar de nome.

Quer amigos verdadeiros, mas não sabe que todos são. Pensa que, se têm interesse nele, são interesseiros, e por isso esforça-se por afastar todos os que se interessam por ele. Depois, quando já ninguém quer saber dele, dedica-se a fazer coisas maravilhosas para que se voltem a aproximar.
O animal é parvo. Compôs uma suite para quarteto de cordas tão famosa que tornou rico um pobre professor de piano da sua terra, mas depois achou-o desonesto porque ficou com a glória que não era dele. O professor repensou, deu a glória que devia ao animal e ele… ficou fulo porque os jornais todos diziam que se tinha redescoberto o autor do livro famoso! Achou o professor desonesto porque tinha prometido não divulgar!
Achou-se execrável porque culpava o professor por fazer tudo e o seu contrário.
Pareceu-lhe tudo injusto, e decidiu acabar consigo próprio. Gastou todo o seu dinheiro a comprar um carro blindado acelerou a toda a velocidade e atirou-se junto com o carro para o rio Vouga. Não morreu, recuperou e no dia em que teve alta do hospital da Universidade de Coimbra comprou uma passagem para o Egipto. Atirou-se ao Nilo e nunca mais ninguém o viu.
Não apareceu em nenhum obituário, porque ninguém sabe como é que se chama realmente.
Poderia ter sido o mais brilhante ser humano que alguma vez viveu, mas como nunca quis nada fácil, será para sempre quase nada.

Jun2009

Um anjo perdido…

O dia tinha sido grande e o trabalho mais que muito, mas cumprido com orgulho e competência.
Talvez por isso, o rapaz saía nesse dia com a leveza da sensação do dever cumprido.

Fechou a loja à chave e depois de um último olhar à fachada encaminhou-se rua abaixo com o pescoço bem enterrado entre os ombros. Não havia memória de um Inverno tão frio e aquela noite era especialmente rigorosa.
Virava a primeira esquina ao fundo da rua quando evitou por pouco o choque com um anjo perdido.
Soube no instante em que viu aqueles olhos, que aquele anjo precisava de segurança. Pensou dar-lhe um abraço, quente como são todos os que dão os corações apaixonados, mas as suas pernas com medo de fraquejar, fugiram a correr. Como um louco hesitante voltou veloz. O rapaz sabia que os anjos conseguem sentir mesmo a mais pequena porção de amor, e por isso tinha medo que o anjo fugisse, quando percebesse que o amava.

Os olhos de um anjo são, por si só, um fenómeno impressionante e o rapaz tentava evitar olhá-los mais tempo do que o necessário. Aquele Anjo tinha o olhar mais perdido que alguma vez tinha visto – parecia que tinha sido abandonado pelo mundo inteiro. o rapaz sentiu-se mais fraco do que alguma vez antes sentira, provavelmente porque o vácuo que o anjo tinha, dentro de si parecia sugar tudo nele.

O anjo disse não saber porque é que ali estava e o rapaz reconheceu que ao contrário do que era habitual não conseguia pensar com clareza.

Quando correu e se afastou alguns metros do anjo, pôde de novo pensar e assim soube que tinha que o levar de volta a casa, naquele lugar entre as nuvens e o infinito. O anjo, que tinha permanecido imóvel, acedeu e continuou atordoado durante todo o caminho. Quando finalmente chegaram ao crepúsculo, que é o lugar até onde o rapaz podia ir, disseram-se adeus e foram-se.

O anjo nunca mais pensou no rapaz, mas o rapaz desde esse dia que vagueia pelas ruas à procura de olhares perdidos, sem suspeitar que ele próprio tem um olhar assim. Não é anjo, é só rapaz, mas passa tanto tempo no ar, que não é assim tão diferente dos anjos… Mas que sei eu? Sou só Deus e de coisas os Deuses não percebem nada.