Religião MEC

Há uma religião que recomendo a toda a gente.

Tem apenas uma obrigação:

Miguel Esteves CardosoLer diariamente o que escreve Miguel Esteves Cardoso.

Eu sou assinante do Público por essa exclusiva razão. Não que os outros ilustres produtores de conteúdos daquele jornal não sejam merecedores de toda a consideração, mas o “forretismo” não me permite gastar dinheiro senão com bens de primeira necessidade. A inteligência, graça e virtuosismo com que o MEC escreve são ímpares!

Eu sei o homem é gordo, é snob e muitas vezes escreve sobre coisas sem interesse, mas se tudo o que é desinteressante fosse escrito como ele faz, seria tudo muito mais.

Sendo assim resta-me dar os parabéns a todos os outros cronistas, porque ser cronista depois de saber que o MEC existe é muito mais difícil…

Hoje

Um rabino disse que é uma grande benção chegar a um estado de “total acalmia”.
Esperei horas debaixo da sombra de um carvalho, mas no final a grande revelação que tive foi sede e queimaduras solares.

Hoje não tenho nada para te dizer Maria.
Não tenho. nem palavras doces, nem frases ríspidas
Hoje é um dia, não dia um
hoje não começa nada, mas amanhã terá pelo menos acabado hoje.
hoje que não tem futuro

Hoje estou desinfeliz e satisfeito de esperança
não quero nada, mas tenho tudo o que quero

Ter tudo! Será a felicidade suprema?

Não sei. Hoje de manhã provei-me e o meu sangue sabia a sangue
não sabia a mar, como os cabelos de uma menina feliz que li num romance, não cheirava a morte como os condenados que estavam presos nas páginas de outro livro. Lambi-me a pele e sabia a sal, como seria de esperar.
Nada de especial.

Um rabino disse que é uma grande benção chegar a um estado de “total acalmia”.
Esperei horas debaixo da sombra de um carvalho, mas no final a grande revelação que tive foi sede e queimaduras solares.

O psiquiatra usou exactamente os mesmo argumentos. Os comprimidos dar-me-iam ânimo e vitalidade, mas tenho um vizinho que usa heroína à anos e não me parece mais feliz do que eu.

não te sirvo para nada Maria, nem tu a mim.
mas és o meu único querer,
e mesmo sem ser infeliz,
és todos os meus momentos de felicidade

roldana e caminho

Não saber que o caminho é a verdadeira Importância, é como passar pela vida apenas com o intuíto de chegar à morte.

O rolamento arranha o caminho, ambos fartos da sua inutilidade.
São de materiais diferentes, dão-se mal.

Caminho

O caminho sabe o seu propósito,
mas a roldana acha que foi feito para si,
julga que é esse o seu único propósito.

Será.
…mas o caminho quer ter outra função
e quem é alguém para dizer qual a utilidade de outrem?

A porcaria da roldana é só um bocado de lixo futuro,
ou, na melhor da hipóteses, será um dia entulho para construir o caminho.
O caminho sabe da sua importância e portanto despreza a inutilidade dos que o usam apenas para chegar a outras desimportâncias.

Não saber que o caminho é a verdadeira Importância, é como passar pela vida apenas com o intuíto de chegar à morte.

De qualquer maneira, mesmo que alguém queira ir por outro sítio que não o caminho, nunca o conseguirá. O caminho será sempre o que fôr caminhado. Mesmo que se escolha ir por caminho nenhum, será esse o caminho.

estúpido

No início os homens mais fortes perceberam que podiam derrotar os mais fracos. Depois os mais fracos descobriram a determinação e tornaram-se mais fortes do que os fortes.
Depois os que tinham sido derrotados perceberam que com pedras podiam atingir os fortes à distância e por isso a sua força tornava-se menos vantajosa.
Tudo isto foi no tempo em que o homem era ainda uma espécie de macaco.
Com o desenvolvimento do intelecto ficou tudo exactamente na mesma.
Quando as pedras venceram os punhos, descobriram os paus, e depois os ferros e depois as balas e depois as bombas e depois os mísseis…

Queremos sempre vencer os nossos inimigos. Queremos derrotá-los, ser mais fortes do que eles. Isso torna-nos mais musculados, mais precisos, mais eficazes e mais formidavelmente desumanos.
Responder a um estalo com um murro, é o mesmo que cuspir em quem merece. Ser humano é ser mais do que instinto natural, é ter consciência de tudo, é não matar quando a outra opção é morrer.
Não digo que consigamos ser sempre humanos, mas ter orgulho em ser estúpido é ser só isso.

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