Crise económica

Os “especialistas” dizem que Portugal vai ter uma recessão enorme, que pode chegar aos 15% e isto nas piores previsões!
Há muito tempo que eu suspeito que a “grande economia” é baseada em nada.
Obviamente que eu não sei nada de economia, porque tenho a certeza que o rombo económico será muito maior do que isso.
O meu problema é que as minhas previsões são baseadas na realidade. Eu sei que os negócios da minha rua estão todos fechados e estarão por vários meses e sei que a facturação dessas pessoas reduziu-se para zero! Eu sei que na minha rua a economia terá reduções superiores a 50% este ano. Mas isto é só na minha rua e na minha cidade, porque são reais!
Já no mundo da banca, finanças e economia globais, tudo é diferente.
Dinheiro que aparece do nada é fácil de repor.

Resta a esperança de que os especialistas sejam de facto e que eu seja só um fala-barato!

Desinteligência, ou bipolarização de opinião, ou Fernando Santos

Ontem ouvi o Fernando Santos – treinador da equipa nacional de futebol – a falar no programa da RTP “Prós e Contras”. O programa era acerca da eutanásia.
Curiosamente Fernando Santos é um homem com que eu simpatizava, apesar de não ter razões objectivas para isso. Ontem pareceu que o senhor não consegue ter uma linha de pensamento coerente.
O importante aqui não é o facto de ser Fernando Santos nem sequer a posição que defende. O maior esclarecimento que adveio (para mim) do debate, foi que as pessoas têm as suas opiniões e quando as debatem, tentam defendê-las por todos os meios possíveis até provarem que têm razão. Que sentido é que isto faz?
O objectivo de um debate deveria ser tentar perceber nos outros argumentos as falhas dos meus. O objectivo deveria ser chegar a acordo e não tentar por qualquer meio, mesmo que irrazoável, provar que o outro não tem razão.
Fernando Santos não ouviu nada do que disse o seu interlocutor, mas tinha algo para dizer, que apesar de nada ter que ver com o assunto, intrometeu no seu discurso. Acho que é preciso ensinar as pessoas a dialogar, a defender (não atacar) pontos de vista e a ter abertura para ouvir outros, assim como dar ferramentas às pessoas para poderem identificar erros de raciocínio.
É assim que se combate estupidez, não com bipolarização de argumentos.
Já agora congratulo Adolfo Mesquita Nunes, que mostrou, no mesmo debate, como é que alguém deve abordar estas questões, para poder decidir sobre elas.

Os Caminhos que corremos (ou se o soneto fosse assim)

Não vemos nada
e somos o que vemos
a originalidade é uma cópia adulterada
O que virmos ser, seremos

As ideias novas que temos
são ideias de que nos esquecemos
O mundo novo que aparece
é só o que o mundo velho esquece

Não que não valha a pena inventar,
não que a procura não importe
é exactamente o contrário

Só é importante criar
desacreditar a sorte
Viver sendo temerário

E se ainda não fizermos nada novo
se tudo o que nos sai, já tiver sido antes

não nos ralemos com o povo
nem com o que dizem entredentes

o que sempre importou foi o caminho

mesmo se tivermos que o fazer sozinho

importâncias

EspíritoMenteCorpo

O melhor dos alunos do mestre desabafou que o sexo era coisa que não o interessava, era quente demais, tinha cheiros demasiado intensos e provinha do desejo.
O sexo provém de excesso de desejo e leva também a ele, portanto é necessariamente desequilibrado.

O mestre, depois da costumeira pausa, replicou:
Tal como aquele que não se lembra do espírito, não conseguirá elevar-se até ele, também o que se esquece do corpo, não conseguirá tirar dele o que o atleta consegue.
O teu raciocínio é excelente e o teu domínio do espírito também avançado, mas o que sabes tu do corpo e das suas leis? Aprendeste tudo, mas para saber é preciso praticar.

Anjo da música (ou Sol)

Às vezes, para me acompanhar na escrita, gosto de ter música de fundo. Não escolhi; deixei que os circuitos electrónicos de um computador o fizessem por mim aleatoriamente. Deram-me de presente o “Ponto de Luz” da Sara Tavares.

Nunca me tinha ocorrido que as bênçãos pudessem vir sob a forma de megabytes, mas a verdade é que nunca manhã difícil esse anjo da música veio fazer-me cafuné com a voz.

Obrigado Sara Tavares, és um Sol.

Morreu-se-me

Sempre achei que não gostavas do que eu pinto porque terás mais talento do que eu
e por isso ser-te-ia penoso veres os meus trabalhos sofríveis.

Também sempre pintei mais do que tu, mas nunca melhor…

para mim pintar é um real prazer e, mesmo que por vezes me mova a esperança de um reconhecimento improbabilíssimo, a grande maioria das vezes pinto apenas por puro deleite, sem objectivo nenhum que não o próprio acto de o fazer.

Nunca fui, nem serei tão bom pintor como tu. Sabes como misturar as cores, sabes como e quais os pincéis a utilizar e consegues reproduzir exactamente o que a tua mente imagina.

Disseste-me: “Não pintes a esta hora, os pincéis fazer demasiado ruído para uma hora tão tardia”

Hoje descobri que não desgostas da minha arte
simplesmente a achas execrável
inferior, reles, inglória, inútil e sobretudo
incómoda e desconfortável
não com aquele sentido que os artistas gostam de dar,
aquele que indica que a arte é tão boa que só maus se sentem incomodados por ela.

Tu és boa.
e, por isso, o incómodo e desconforto da minha arte não é meritório,
é-te um pau de giz a zurrar num quadro de lousa,
é um talher a raspar aos gritos num prato.
É isto que te inflijo quando pinto.

Peço-te que me perdoes por querer alegrar-te da mesma forma que alegrei tantos antes de ti;
esses que me pediam desenhos e que me aplaudiam sem razão.

Fui arrogante ao pensar que poderia alguma vez soar bonito aos teus olhos,
esses olhos habituados a perfeição e beleza.
Não são essas as minhas formas e cores, nunca serão
por isso hoje aqui te juro que jamais me verás pintar
jamais te chegará algum quadro meu por minha mão.

Não posso jurar não pintar nunca, porque eu sou pintar
não posso afiançar que te nunca cruzarão o olhar cores da minha paleta
Mas se o destino assim quiser, não será por minha vontade ou mote

Terei em ti mulher, como até agora,
mas, como nunca antes, terei nas telas amantes
chegarei tarde, inventarei desculpas,
mentir-te-ei com todo o engenho que souber
Também não posso prometer que não haverá bastardos,
mas posso também firmar que não te serão por mim apresentados

Enfim termina neste dia, o verdadeiro que tentei ser-te.
Ser-te-ei mais perfeito e útil, menos eu, mas menos inútil.
Deseja-nos sorte, vamos precisar
Tu tão tu e eu tão nada
temos ainda tanto que caminhar…