Anjo da música (ou Sol)

Às vezes, para me acompanhar na escrita, gosto de ter música de fundo. Não escolhi; deixei que os circuitos electrónicos de um computador o fizessem por mim aleatoriamente. Deram-me de presente o “Ponto de Luz” da Sara Tavares.

Nunca me tinha ocorrido que as bênçãos pudessem vir sob a forma de megabytes, mas a verdade é que nunca manhã difícil esse anjo da música veio fazer-me cafuné com a voz.

Obrigado Sara Tavares, és um Sol.

Morreu-se-me

Sempre achei que não gostavas do que eu pinto porque terás mais talento do que eu
e por isso ser-te-ia penoso veres os meus trabalhos sofríveis.

Também sempre pintei mais do que tu, mas nunca melhor…

para mim pintar é um real prazer e, mesmo que por vezes me mova a esperança de um reconhecimento improbabilíssimo, a grande maioria das vezes pinto apenas por puro deleite, sem objectivo nenhum que não o próprio acto de o fazer.

Nunca fui, nem serei tão bom pintor como tu. Sabes como misturar as cores, sabes como e quais os pincéis a utilizar e consegues reproduzir exactamente o que a tua mente imagina.

Disseste-me: “Não pintes a esta hora, os pincéis fazer demasiado ruído para uma hora tão tardia”

Hoje descobri que não desgostas da minha arte
simplesmente a achas execrável
inferior, reles, inglória, inútil e sobretudo
incómoda e desconfortável
não com aquele sentido que os artistas gostam de dar,
aquele que indica que a arte é tão boa que só maus se sentem incomodados por ela.

Tu és boa.
e, por isso, o incómodo e desconforto da minha arte não é meritório,
é-te um pau de giz a zurrar num quadro de lousa,
é um talher a raspar aos gritos num prato.
É isto que te inflijo quando pinto.

Peço-te que me perdoes por querer alegrar-te da mesma forma que alegrei tantos antes de ti;
esses que me pediam desenhos e que me aplaudiam sem razão.

Fui arrogante ao pensar que poderia alguma vez soar bonito aos teus olhos,
esses olhos habituados a perfeição e beleza.
Não são essas as minhas formas e cores, nunca serão
por isso hoje aqui te juro que jamais me verás pintar
jamais te chegará algum quadro meu por minha mão.

Não posso jurar não pintar nunca, porque eu sou pintar
não posso afiançar que te nunca cruzarão o olhar cores da minha paleta
Mas se o destino assim quiser, não será por minha vontade ou mote

Terei em ti mulher, como até agora,
mas, como nunca antes, terei nas telas amantes
chegarei tarde, inventarei desculpas,
mentir-te-ei com todo o engenho que souber
Também não posso prometer que não haverá bastardos,
mas posso também firmar que não te serão por mim apresentados

Enfim termina neste dia, o verdadeiro que tentei ser-te.
Ser-te-ei mais perfeito e útil, menos eu, mas menos inútil.
Deseja-nos sorte, vamos precisar
Tu tão tu e eu tão nada
temos ainda tanto que caminhar…

Religião MEC

Há uma religião que recomendo a toda a gente.

Tem apenas uma obrigação:

Miguel Esteves CardosoLer diariamente o que escreve Miguel Esteves Cardoso.

Eu sou assinante do Público por essa exclusiva razão. Não que os outros ilustres produtores de conteúdos daquele jornal não sejam merecedores de toda a consideração, mas o “forretismo” não me permite gastar dinheiro senão com bens de primeira necessidade. A inteligência, graça e virtuosismo com que o MEC escreve são ímpares!

Eu sei o homem é gordo, é snob e muitas vezes escreve sobre coisas sem interesse, mas se tudo o que é desinteressante fosse escrito como ele faz, seria tudo muito mais.

Sendo assim resta-me dar os parabéns a todos os outros cronistas, porque ser cronista depois de saber que o MEC existe é muito mais difícil…

Hoje

Hoje não tenho nada para te dizer Maria.
Não tenho. nem palavras doces, nem frases ríspidas
Hoje é um dia, não dia um
hoje não começa nada, mas amanhã terá pelo menos acabado hoje.
hoje que não tem futuro

Hoje estou desinfeliz e satisfeito de esperança
não quero nada, mas tenho tudo o que quero

Ter tudo! Será a felicidade suprema?

Não sei. Hoje de manhã provei-me e o meu sangue sabia a sangue
não sabia a mar, como os cabelos de uma menina feliz que li num romance, não cheirava a morte como os condenados que estavam presos nas páginas de outro livro. Lambi-me a pele e sabia a sal, como seria de esperar.
Nada de especial.

Um rabino disse que é uma grande benção chegar a um estado de “total acalmia”.
Esperei horas debaixo da sombra de um carvalho, mas no final a grande revelação que tive foi sede e queimaduras solares.

O psiquiatra usou exactamente os mesmo argumentos. Os comprimidos dar-me-iam ânimo e vitalidade, mas tenho um vizinho que usa heroína à anos e não me parece mais feliz do que eu.

não te sirvo para nada Maria, nem tu a mim.
mas és o meu único querer,
e mesmo sem ser infeliz,
és todos os meus momentos de felicidade

roldana e caminho

O rolamento arranha o caminho, ambos fartos da sua inutilidade.
São de materiais diferentes, dão-se mal.

Caminho

O caminho sabe o seu propósito,
mas a roldana acha que foi feito para si,
julga que é esse o seu único propósito.

Será.
…mas o caminho quer ter outra função
e quem é alguém para dizer qual a utilidade de outrem?

A porcaria da roldana é só um bocado de lixo futuro,
ou, na melhor da hipóteses, será um dia entulho para construir o caminho.
O caminho sabe da sua importância e portanto despreza a inutilidade dos que o usam apenas para chegar a outras desimportâncias.

Não saber que o caminho é a verdadeira Importância, é como passar pela vida apenas com o intuíto de chegar à morte.

De qualquer maneira, mesmo que alguém queira ir por outro sítio que não o caminho, nunca o conseguirá. O caminho será sempre o que fôr caminhado. Mesmo que se escolha ir por caminho nenhum, será esse o caminho.