Restos:

Vós não sois más pessoas;
sois piores, sois restos de civilizados.

Percebo que o medo leve a preconceitos, há aliás estudos que o provam.

Tratar alguém como indigente porque o achamos (independentemente de ser ou não) é reles.

Não julguem que me acho melhor do que vós. A única diferença é que tenho vergonha de discriminar enquanto vós o fazeis sem pudor.

Da próxima vez que sussurrardes “cigano” ou “pedinte”, lembrai-vos que todos os dias vos penso bestas, mas não o vocifero como um parvalhão que, sem conseguir, tento não ser.

Ainda assim, se eu seguisse o meu próprio conselho, calar-me-ia e deixar-vos ia viver a vossa vida.
Tal como não vale a pena ensinar a tabuada a um cão, porque nunca conseguiria aprender, também não espero que deixemos de ser descriminatórios nos pensamentos, mas rogo-vos que pelo menos deixeis de o assumir com garbo e remeteis essas ideias ao opróbrio do silêncio.

As melhoras.

Dia Mundial do Livro

Ler não é melhor do que não ler.
Há inúmeras provas de que é assim. Não gosto dos que dizem que os lêem são melhores do que os que não lêem. São gente preconceituosa que precisa de ler mais.

Ler ensina coisas sobre as pessoas,
saber coisas sobre pessoas permite-nos compreendê-las melhor.
Quando se percebe os outros, pode-se julgá-los melhor
Eventualmente ler faz com que nos tornemos mais empáticos para com os outros.

Poder-se-ia concluir que afinal ler faz bem; mas não faz.
A única maneira de fazer bem é se lermos muito, de muitas fontes e formas diferentes.
Assim podemos conhecer os ângulos diferentes e não os do costume, que apenas servem para que fiquemos cada vez mais na mesma.
Se formos burros, cada vez mais burros.

Por isso hoje, dia mundial do livro, não sugiro livros, sugiro diferença, outros autores, outras linguagens…
Isto não quer dizer que a seguir ao Mein Kampf, se deve ler o Capital, quer dizer que a seguir a esses dois se deve ler sobre culinária e depois sobre satanismo.

Matias

Matias é português, casado, benfiquista, católico e uma besta.
A sua mulher é uma feminista parva, que emite opiniões fortíssimas acerca de tudo, de forma violenta e pública.
Matias está invariavelmente contra as opiniões de sua esposa e tem vergonha de quase tudo o que ela diz e faz.
Matias decide divorciar-se porque não faz sentido estar com alguém que não faz sentido.

Matias vai viver com um amigo que é ainda mais benfiquista, mais católico e mais abestalhado.
A sua ex-mulher diria que ele é um gay reprimido, mas Matias sabe bem que aqueles abraços ao amigo só acontecem quando o Benfica marca e nada têm que ver com paneleirice.

Em pouco tempo Matias descobre que o amigo não passa de um panasca reprimido e, depois de ir morar sozinho, passa dois meses a ir às putas.
Sentindo-se de novo o pináculo da masculinidade, decide ligar à mulher que lhe diz que uma vez por mês contrata os serviços de um profissional para lhe “limpar as teias de aranha” e fora isso nem se lembrava que já tinha sido casada com um cão.
Matias recusa-se a ficar afectado. Não é uma gaja qualquer que o deita abaixo.
Pelo sim, pelo não, apanha uma carraspana de caixão à cova e apanha uma boazona na rua que leva 20€ por uma mamada.

Acorda 1 hora depois com o carro enfaixado contra um caixote do lixo. Tem vagas memórias de ter expulsado a meretriz ao pontapé depois de descobrir que era um travesti.

Liga imediatamente ao padre que era director do colégio em que andou em garoto e, com a voz sonolenta, o padre concorda em recebê-lo ao fim do dia.

O padre começa a conversa com a habitual paciência clerical e explicando que, “se um homem não tem objectivos, então também não tem utilidade”. A única coisa que preocupa Matias é o travesti. Quanto a isso o padre diz que há médicos que podem ajudar com tratamentos para a homossexualidade. Matias fica ofendido, solta impropérios e o padre, exasperado, manda-o para o raio que o carregue.
Não havendo raio, carregou-o uma maca da emergência para o hospital. Diagnosticaram-lhe diabetes, colesterol, triglicéridos e tensão alta, deram-lhe 7 medicamentos diferentes, para juntar aos anti-depressivos, aos ansiolíticos e aos calmantes, perfazendo 32 pastilhas diárias. Teve sorte – foi um AVC fraquito.

O tempo foi passando e com ele o número de pastilhas foi aumentado, assim como a quantidade de Gin, que paulatinamente ia arruinando fígado e carteira.
Ao fim de poucos anos Matias passou a ser só um limão. Amargo, amarelo e intragável. Deixou de ser português, porque Portugal era uma merda, deixou de ser benfiquista, porque o Benfica, mesmo quando ganha, joga sempre mal. A mulher e os amigos eram todos uns ressabiados invejosos e Deus não queria saber.

A 1 semana de fazer 50 anos estava acabado. Mal sabia que ainda duraria mais 42 anos. Mas contar o resto seria só tortura.

Crise económica

Os “especialistas” dizem que Portugal vai ter uma recessão enorme, que pode chegar aos 15% e isto nas piores previsões!
Há muito tempo que eu suspeito que a “grande economia” é baseada em nada.
Obviamente que eu não sei nada de economia, porque tenho a certeza que o rombo económico será muito maior do que isso.
O meu problema é que as minhas previsões são baseadas na realidade. Eu sei que os negócios da minha rua estão todos fechados e estarão por vários meses e sei que a facturação dessas pessoas reduziu-se para zero! Eu sei que na minha rua a economia terá reduções superiores a 50% este ano. Mas isto é só na minha rua e na minha cidade, porque são reais!
Já no mundo da banca, finanças e economia globais, tudo é diferente.
Dinheiro que aparece do nada é fácil de repor.

Resta a esperança de que os especialistas sejam de facto e que eu seja só um fala-barato!

Desinteligência, ou bipolarização de opinião, ou Fernando Santos

Ontem ouvi o Fernando Santos – treinador da equipa nacional de futebol – a falar no programa da RTP “Prós e Contras”. O programa era acerca da eutanásia.
Curiosamente Fernando Santos é um homem com que eu simpatizava, apesar de não ter razões objectivas para isso. Ontem pareceu que o senhor não consegue ter uma linha de pensamento coerente.
O importante aqui não é o facto de ser Fernando Santos nem sequer a posição que defende. O maior esclarecimento que adveio (para mim) do debate, foi que as pessoas têm as suas opiniões e quando as debatem, tentam defendê-las por todos os meios possíveis até provarem que têm razão. Que sentido é que isto faz?
O objectivo de um debate deveria ser tentar perceber nos outros argumentos as falhas dos meus. O objectivo deveria ser chegar a acordo e não tentar por qualquer meio, mesmo que irrazoável, provar que o outro não tem razão.
Fernando Santos não ouviu nada do que disse o seu interlocutor, mas tinha algo para dizer, que apesar de nada ter que ver com o assunto, intrometeu no seu discurso. Acho que é preciso ensinar as pessoas a dialogar, a defender (não atacar) pontos de vista e a ter abertura para ouvir outros, assim como dar ferramentas às pessoas para poderem identificar erros de raciocínio.
É assim que se combate estupidez, não com bipolarização de argumentos.
Já agora congratulo Adolfo Mesquita Nunes, que mostrou, no mesmo debate, como é que alguém deve abordar estas questões, para poder decidir sobre elas.

Os Caminhos que corremos (ou se o soneto fosse assim)

Não vemos nada
e somos o que vemos
a originalidade é uma cópia adulterada
O que virmos ser, seremos

As ideias novas que temos
são ideias de que nos esquecemos
O mundo novo que aparece
é só o que o mundo velho esquece

Não que não valha a pena inventar,
não que a procura não importe
é exactamente o contrário

Só é importante criar
desacreditar a sorte
Viver sendo temerário

E se ainda não fizermos nada novo
se tudo o que nos sai, já tiver sido antes

não nos ralemos com o povo
nem com o que dizem entredentes

o que sempre importou foi o caminho

mesmo se tivermos que o fazer sozinho