Podre

Nós eramos uma espécie de vegetais, viviamos demolhados em antidepressivos e calmantes, que nos mantinham em permanente sonolência despreocupada. Eramos um casal completamente disfuncional, mas não se notava porque os outros eram iguais.
Tivemos um filho e isso parecia que nos ia dar a energia que faltava, mas na realidade as noites sem dormir aumentaram a dose de calmantes ao invés de a reduzir.
Uma noite, enquanto a nossa filha, quase amada, dormia entre nós; aconteceu.
A nossa filha era “quase amada” porque em tudo o que faziamos era como se fôssemos zombies, até o amar era “mais ou menos”.
Naquela noite, como em quase todas, estavamos encharcados em medicamentos. Um de nós, não sabemos qual, virou-se na cama e com o peso dos nossos corpos disformes e gordos asfixiamos o único raio de luz que tinhamos na vida.
Assim, tal e qual. É assim que conto, porque foi assim que se passou.
Gostava de dizer que fiqueio desesperado e que atirei com coisas pelo ar, ou que fiquei catatónico durante meses.
Não. Fiquei na mesma, incapaz de sentir o que quer que seja. A minha mulher não sei, foi embora uma semana depois.
Sempre que falo sobre isto, há qualquer coisa dentro de mim que começa a doer, mas tomo um comprimido e vinte minutos depois começo a ficar melhor.
Não me rio há anos, mas também não choro.
É isto.

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