Adeus (ou o que eu fui)

Não sei o que é o amor. Perdi-me algures entre as desilusões, paixões, amizades, desgostos, obsessões e deixei de saber o que quer que seja sobre a felicidade…
Já fiz tanta coisa coisa na vida de que me orgulho…
Já fui modelo – era tão gira nessa altura – o que me fascinava era toda aquela atenção que punham em mim durante aquelas horas que durasse a realização do catálogo. Já as passereles, nunca foram muito do meu agrado, estávamos demasiado limitadas, ou então eu é que tive muito azar e sempre me calharam estilistas castradores…

Fui poetiza – como eu adorava aquelas noites de declamação no tasco onde se bebiam ginjinhas como se fosse àgua – foi em simultâneo com a “suposta carreira” de modelo, mas na luta entre a poetiza e a modelo, acabou por vencer o João.

Um metro e oitenta, olhos azuis, ombros largos de jogador de Rugbi. Era um agridoce; ternurento, mas ciumento demais. Eventualmente acabou por se tornar insuportável e num dia cometi o ultraje (para ele) de lhe dizer que preferia continuar a vida sozinha. Perdeu a compostura e chamou-me nomes feios. Despejei-lhe um copo de “Burmester reserva de 1963” em cima do excelente fato Calvin Klein. Acho que até hoje foi a minha extravagância mais cara de sempre!

Lembro-me também de ter sido prostituta. Foi horrível.
António (nome fictício) era ninfomaníaco, insistia em fazer sexo várias vezes por dia, todos os dias. Eu gostava de sexo e a princípio toda aquela “virilidade” agradava-me bastante. Às vezes faltava ao trabalho porque ficava completamente esgotada.
À medida que o tempo ia passando aquele constante fornicar deixava-me exausta e muitas vezes arranjava desculpas para evitar o António. Estive dezenas de vezes para acabar com tudo, mas o António era (e ainda é) um estilista maravilhoso e quase todos os meses fazia-me um vestido esclusivo e caríssimo. Desculpem, estava a dispersar-me…
Naquela noite eu tinha decidido que iria apenas dar-lhe um beijo e partiria em seguida para o norte onde tinha trabalho no dia seguinte.
É muito difícil explicar como é que me senti, mas a verdade é que acabámos por fornicar como animais. Eu não queria, mas não lhe disse nada porque ele estava quase a terminar um vestido lindo! Depois a revolta de estar a fazer algo contra minha vontade, para quê? Fiquei com tanta raiva de mim mesma! Fugi dali para uma igreja e foi aí que me senti pior do alguma vez me sentira. Tinha asco de mim mesma.
Eventualmente perdoei-me e acabei tudo com o António.

Fui bailarina!
Simon era professor de Salsa no cruzeiro em que o conheci. Rapidamente ficamos “amigas” como ele gostava de dizer, e passávamos grande parte do tempo a apreciar rabos e bícepes de homens! Às vezes fingíamos que eramos um casal, mas ele acabava sempre descair o olhar para os homens, ou então cruzava as pernas daquela maneira que só os gays e as mulheres conseguem.
Foi uma altura muito divertida, pelo menos até a parceira dele adoecer e ele me convidar para ser seu par durante o próximo cruzeiro. Aceitei e foi uma festa constante, mas o excesso de exigência que tinha para comigo em relacção à dança foi tornando-se gradualmente insuportável. Foi com grande alegria que vi regressar a sua anterior parceira, e com ela a nossa velha amizade.
Ser bailarina de Salsa é um sonho para qualquer mulher –  a quantidade de lantejoulas, brilhantes, transparências e decotes enormes que usei! Ainda hoje tenho alguns vestido que usei nesses meses. Apesar das linhas serem menos marcadas, continuo a ter a mesma silhueta desses tempos…

Fui tudo isto, e cheguei mesmo a ser alegre por algum tempo, mas a felicidade, aquele sentimento que dá paz e realização… Isso não.

Sinto a tua falta.
Na única altura da vida em que não fui nada, praticamente não existi. Sugámo-nos um ao outro. Tu não eras nada quando estavas comigo e eu nada era por tua causa. Eramos vulgares e não queríamos saber. Felicidade era a minha mão no subir e descer do teu peito adormecido.
Mas um dia decidiste que querias “fazer coisas”…
– Que coisas?
– Coisas, criar!
– E eu impeço-te?
– Não. Eu é que me impeço porque não tenho vontade senão de ti.

Bateste a porta com força e nunca mais te vi. Que grande talento para transformar palavras tão belas em punhos fechados.
Deste a volta ao meu mundo em exactamente 80 dias! Nem três meses, foi esse o tempo que durámos. Contei-te tudo e tu a mim. Disseste-me que eras só, que não tinhas jeito para pessoas. É mentira, o problema é que és auto-suficiente e isso é tão bom, como mau.

Não tive oportunidade de te dizer adeus e isso é importante para mim, para poder não pensar mais em ti.

Então aqui vai

Vânia, 23 de Junho 2010

Obrigado! Volta sempre que puderes! É bom saber de ti!

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