O animal é parvo

O animal queria reconhecimento.
Trabalhava 16 horas por dia e ainda estudava mais 3. Ficava sem comer para ter dinheiro para comprar livros. Não tem amigos para conversar, nem amigas para apaixonar.

Pintou um quadro anónimo para não alimentar a sua própria vaidade, mas deram a vaidade a quem o descobriu, mesmo sem se revelar o autor. Depois escreveu um livro, mas ficou tão famoso que teve de mudar de nome.

Quer amigos verdadeiros, mas não sabe que todos são. Pensa que, se têm interesse nele, são interesseiros, e por isso esforça-se por afastar todos os que se interessam por ele. Depois, quando já ninguém quer saber dele, dedica-se a fazer coisas maravilhosas para que se voltem a aproximar.
O animal é parvo. Compôs uma suite para quarteto de cordas tão famosa que tornou rico um pobre professor de piano da sua terra, mas depois achou-o desonesto porque ficou com a glória que não era dele. O professor repensou, deu a glória que devia ao animal e ele… ficou fulo porque os jornais todos diziam que se tinha redescoberto o autor do livro famoso! Achou o professor desonesto porque tinha prometido não divulgar!
Achou-se execrável porque culpava o professor por fazer tudo e o seu contrário.
Pareceu-lhe tudo injusto, e decidiu acabar consigo próprio. Gastou todo o seu dinheiro a comprar um carro blindado acelerou a toda a velocidade e atirou-se junto com o carro para o rio Vouga. Não morreu, recuperou e no dia em que teve alta do hospital da Universidade de Coimbra comprou uma passagem para o Egipto. Atirou-se ao Nilo e nunca mais ninguém o viu.
Não apareceu em nenhum obituário, porque ninguém sabe como é que se chama realmente.
Poderia ter sido o mais brilhante ser humano que alguma vez viveu, mas como nunca quis nada fácil, será para sempre quase nada.

Jun2009

Silêncio, fumo, barulho e nada..

O barulho correu frenético até se alojar, ensurdecedor, no fundo dos tímpanos. Não dizia nada, tomava apenas o seu lugar e fazia-o com a veemência de um Todo-Poderoso.

O fumo continuava perdido, fora do cigarro, espraiava-se lento pela sala claustrofóbica, tornando-a pesada e doentia.
Os olhos raiados de sangue queriam jorrar das órbitas, mas os nervos matinham-nos agarrados ao rosto esburacado de bexigas.
O tempo passava num ritmo cardíaco sem crença e compassado com música decadente que, entornada sem vontade dum rádio a pilhas, embalava a densidade do ambiente num pêndulo de inutilidade.

Foi assim que vivo.
Será assim que nasci.
É assim que morri.

Um anjo perdido…

O dia tinha sido grande e o trabalho mais que muito, mas cumprido com orgulho e competência.
Talvez por isso, o rapaz saía nesse dia com a leveza da sensação do dever cumprido.

Fechou a loja à chave e depois de um último olhar à fachada encaminhou-se rua abaixo com o pescoço bem enterrado entre os ombros. Não havia memória de um Inverno tão frio e aquela noite era especialmente rigorosa.
Virava a primeira esquina ao fundo da rua quando evitou por pouco o choque com um anjo perdido.
Soube no instante em que viu aqueles olhos, que aquele anjo precisava de segurança. Pensou dar-lhe um abraço, quente como são todos os que dão os corações apaixonados, mas as suas pernas com medo de fraquejar, fugiram a correr. Como um louco hesitante voltou veloz. O rapaz sabia que os anjos conseguem sentir mesmo a mais pequena porção de amor, e por isso tinha medo que o anjo fugisse, quando percebesse que o amava.

Os olhos de um anjo são, por si só, um fenómeno impressionante e o rapaz tentava evitar olhá-los mais tempo do que o necessário. Aquele Anjo tinha o olhar mais perdido que alguma vez tinha visto – parecia que tinha sido abandonado pelo mundo inteiro. o rapaz sentiu-se mais fraco do que alguma vez antes sentira, provavelmente porque o vácuo que o anjo tinha, dentro de si parecia sugar tudo nele.

O anjo disse não saber porque é que ali estava e o rapaz reconheceu que ao contrário do que era habitual não conseguia pensar com clareza.

Quando correu e se afastou alguns metros do anjo, pôde de novo pensar e assim soube que tinha que o levar de volta a casa, naquele lugar entre as nuvens e o infinito. O anjo, que tinha permanecido imóvel, acedeu e continuou atordoado durante todo o caminho. Quando finalmente chegaram ao crepúsculo, que é o lugar até onde o rapaz podia ir, disseram-se adeus e foram-se.

O anjo nunca mais pensou no rapaz, mas o rapaz desde esse dia que vagueia pelas ruas à procura de olhares perdidos, sem suspeitar que ele próprio tem um olhar assim. Não é anjo, é só rapaz, mas passa tanto tempo no ar, que não é assim tão diferente dos anjos… Mas que sei eu? Sou só Deus e de coisas os Deuses não percebem nada.