Hoje

Hoje não tenho nada para te dizer Maria.
Não tenho. nem palavras doces, nem frases ríspidas
Hoje é um dia, não dia um
hoje não começa nada, mas amanhã terá pelo menos acabado hoje.
hoje que não tem futuro

Hoje estou desinfeliz e satisfeito de esperança
não quero nada, mas tenho tudo o que quero

Ter tudo! Será a felicidade suprema?

Não sei. Hoje de manhã provei-me e o meu sangue sabia a sangue
não sabia a mar, como os cabelos de uma menina feliz que li num romance, não cheirava a morte como os condenados que estavam presos nas páginas de outro livro. Lambi-me a pele e sabia a sal, como seria de esperar.
Nada de especial.

Um rabino disse que é uma grande benção chegar a um estado de “total acalmia”.
Esperei horas debaixo da sombra de um carvalho, mas no final a grande revelação que tive foi sede e queimaduras solares.

O psiquiatra usou exactamente os mesmo argumentos. Os comprimidos dar-me-iam ânimo e vitalidade, mas tenho um vizinho que usa heroína à anos e não me parece mais feliz do que eu.

não te sirvo para nada Maria, nem tu a mim.
mas és o meu único querer,
e mesmo sem ser infeliz,
és todos os meus momentos de felicidade

Best of luck.

You worry me.

You say you don’t love me, and that’s good because I moved on and I no longer include us in my future. Yet, too often I find you passing at my door… by chance, as you always say.

Do not fool yourself; you are really the most interesting person I know, and you have so many things that no one else even grasps (those lips!), but I also decided that I would forget you and if there are decisions that have to be respected are the ones I do myself. This also I learned from you.

What I mean by this is that the interest I have for you is completely unselfish and it doesn’t even cross my mind that we will, someday, have any involvement beyond the great friendship I’m hoping will be everlasting.

That said, I really want to confront you with the awkwardness that your constant presence causes.

You’re in the bakery where I usually go at 8:00, then “accidentally” you show up wherever I lunch, no matter the place. And, on the rainy days – which are not few – I found you waiting with an umbrella ready to give me a ride. I always try to resist, but you end up convincing me. You take me home and always give me wise, yet annoyingly patronizing advices. I always end up feeling better.
Your magic still works, you always make me fell good.
Then we say goodbye and I feel your eyes on my back while I walk home. Then I’m relieved because I resisted kissing you.

Then, when everything goes well, I don’t remember you all day, I hang out with my boyfriend – who has a lot more time for me than you ever would have… And this thought makes me think about the sacrifices you probably have done to give me a ride. I know that you have every minute of the day accounted for, and that’s the very reason why we didn’t work.

You yourself said you where never there when I needed. It’s true. The endless days I suffered by not knowing of you, longing for your enormous hug …
Now I don’t have it’s comfort – which is unmatched, but also do not suffer for not having it, because the comfort I have, however smaller, is mine.

I think that’s why the greatest love stories never last. They’re necessarily fatal. A great passion cannot survive, because it consumes everything around it. At most it can become a happy love. That is a huge blessing, and I have it.

I have to thank what you where and always will be to me. That’s why I’d like you to be as happy as you look, or as you turned me into.

Sometimes can you deceive me and seem genuinely happy, but it can never last long.

I know I cannot have great importance in your life, but still I want you to know that your happiness is very important to me and to so many people you inspire. You know you’re a point of reference, odd, but still an example. Examples must be happy so that we, ordinary people, can also believe that we can be happy.

I wish you happiness.

porcaria (ou consideração em Si menor)

Si menor2Quero agradecer-lhe,
tenho toda a consideração do mundo por si,
que me lê
mas isto por si só, não lhe dá mérito,
poderá é dar-se o caso do mérito
ser motivo de consideração

mas considerando que
a consideração que lhe tenho
deve-se apenas ao facto de me estar a ler
e por isso me massajar o ego,
tenho que concluir que o que tenho por si
não é verdadeiro,
é só agradecimento por me reconhecer.

Mas se me reconhece por esta…
porcaria
descubro que não tenho qualquer consideração por si
porque isto que aqui lê
não é mais que perda de tempo, não tem valor

E, se V. Exa., gasta olhos e tempo e energia
a ler esta porcaria
não é dotada de qualquer mérito,
e merece de mim, portanto,
desprezo

Termino este agradecimento,
retirando-o
e desejando-lhe as melhoras!

Você é um ser desprezível!
Não por ser vil ou sequer desagradável,
apenas por não ter utilidade nenhuma
e, por isso, pode
e deve
ser desprezado.

roldana e caminho

O rolamento arranha o caminho, ambos fartos da sua inutilidade.
São de materiais diferentes, dão-se mal.

Caminho

O caminho sabe o seu propósito,
mas a roldana acha que foi feito para si,
julga que é esse o seu único propósito.

Será.
…mas o caminho quer ter outra função
e quem é alguém para dizer qual a utilidade de outrem?

A porcaria da roldana é só um bocado de lixo futuro,
ou, na melhor da hipóteses, será um dia entulho para construir o caminho.
O caminho sabe da sua importância e portanto despreza a inutilidade dos que o usam apenas para chegar a outras desimportâncias.

Não saber que o caminho é a verdadeira Importância, é como passar pela vida apenas com o intuíto de chegar à morte.

De qualquer maneira, mesmo que alguém queira ir por outro sítio que não o caminho, nunca o conseguirá. O caminho será sempre o que fôr caminhado. Mesmo que se escolha ir por caminho nenhum, será esse o caminho.

hoje ainda não rebentou nada

ExplosionHoje ainda não rebentou nada,
mas não me sinto melhor
continua o pó na estrada
e no ar o mesmo fedor

continua a cheirar a morte
mas estou de pé e posso contar esta história
devia achar que sou bafejado pela sorte
que um dia esta guerra trará glória

mas sei que como todas,
também esta guerra serve para nada
Não vão mudar vontades, nem sequer modas
no fim vão ficar vazios e buracos na estrada

Os que tinham razão e os que não tinham,
vão viver ou morrer
Alguns vão achar que ganharam alguma coisa
terão até a arrogância de celebrar a vitória.
Dirão que ganhou a virtude, que acabou a escória
Tudo melhorará enquanto o pó poisa

Mas quando tudo assentar
não serviu para mudar nada,
descobrir-se-á que a guerra serviu para matar
não mudou a humanidade, nem o preço da empada

melhorarão as esperanças dos que ganharem
arruinar-se-ão ideias que iam mudar tudo para melhor,
e os que sobreviverem, os que ficarem
aprendem novos hinos de cor

uma vez mais vencerá alguém,
alguém perderá
Não vai ganhar o Mal, nem o Bem,
o nada vencerá

Mas não será desta que se aprende.
nem tudo se compra e vende.
Há coisas mais importantes que nós
e valerá talvez a pena morrer por elas,
mas matar não tem nada abaixo
o lodo da virtude é isso.

Uma só atitude pouco importa,
mas uma só atitude tudo infecta
se a linha em que vens foi feita torta
é tua missão fazê-la recta.

EndofWar

Não tenho esperança, nem me é possível redenção
mas para vós, os que vêm em mim bafio bolorento
há audácia, possibilidade e regeneração
haja vontade, coragem e alento!

Sigam! Fazei o que manda o coração
ignorai experiência e velhos medrosos
fazei tudo novo, cagai na oração
sede apaixonados e fervorosos

Adorem o deus verdadeiro,
que é menos que qualquer um de vós
Damascoque deixe da haver macho, fêmea, paneleiro
acabem a pontas soltas e os nós

Agarrem na virtude e no pecado
e queimem-nos como às bruxas do passado

Construam um mundo novo, porra!
baseado somente em felicidade
em que a sobrevivência morra
e se extinga a crueldade

meça-se a riqueza em riso e que errar seja treinar,
que todo o rosto seja liso e as rugas só para enfeitar

 

ou então façam a mesma merda outra vez
Pode ser que daqui a mil anos
tenhamos aprendido a degustá-la como ao vinho.
Seremos escanções de trampa
e teremos a vida que merecemos
finalmente.
Como uma praga de baratas,
depois de extinto o exterminador.

Tocs de tacão. (ou texto inútil)

A noite cai lenta e pesada
mas não se aleija, fica só amassada
A mulher, que vestia amarelo vivo,
antes do Sol debandar
agora carrega um beije deslavado
que a desiluminação pública não deixa brilhar

Faltam 20 tocs de tacão da mulher para a meia-noite e em breve as suas passadas passarão a ser mais sinistras,
porque depois, alumiadas, já têm sombras e perigos possíveis.
Nunca houve um único crime em locais sem sombra. Nem um na história de toda a humanidade, até porque há uma lei natural, que muito poucos conhecem, que diz que onde não há sombra, não há crime. Aliás aqueles que temem o escuro são tolos. No escuro não há sombra e, por isso, a única coisa a temer é o próprio. Nada de mau virá de outros no escuro, já de si próprio…
O precipício não se coloca no caminho do incauto só porque está breu.
O mal não foi parido pela Maldade! Foi aquele que achou que o que foi, foi mau; como se a árvore fosse pau e as costas que açoita fossem tidas no achamento de culpa.

Enquanto pensamentos fogem do nexo, a mulher de vestido ex-amarelo-vivo agora está realmente preocupada com a sensação de estar a ser seguida. – Se calhar até está, mas tudo o que acontece, será fatalmente seguido por outra coisa. – A questão aqui será se a mulher estará ou não a ser perseguida – este prefixo muda pouco, mas a insanidade latente disfarçada de perfeccionismo deste relato, torna dificílima a descrição que se quereria lógica, tornando-a praticamente ininteligível.
pencil_sketch_15276344288111922766423.pngA mulher entretanto partiu um tacão e parece agora ter calçado uma sabrina no pé esquerdo enquanto mantém o tacão altíssimo no pé direito, reduzindo assim para metade os tocs do seu caminhar cada vez mais tenso. Poderíamos saber como se partiu o mencionado tacão, não fosse a parvoíce de quem nos não descreve a acção, simplesmente para se perder em idiossincrasias ou, melhor dizendo, ideoapatias que servem só para quebrar o ritmo e a vontade de ler o resto da estória.
Opa! E lá vai outro tacão – mais uma vez teremos que ficar sem saber como é que isso aconteceu, mas pelo menos agora podemos conjecturar que terá sido a própria mulher que decidiu sabrinar o outro sapato para efeitos de equilíbrio. Apesar disto, um narrador mais competente, certamente notaria que a mulher agarra o tacão com o seu punho fechado, como que preparando-se para o usar como arma.
Mas o que temos é uma descrição na qual não se percebe qualquer ameaça, a não ser a das sombras e a ausência de toc-tocs que os ex-sapatos-de-salto-alto agora não fazem.

A mulher está já numa passada no limiar da corrida, dando pequenas corridas intercaladas com passada menos rápida os tocs que antes se ouviam, agora recomeçam a ouvir-se, não se percebendo se são outros tacões que os fazem, ou se é o próprio coração da mulher, que cada vez se faz ouvir mais alto.
A tensão aumenta e pela cabeça da mulher passam imagens de facas ensanguentadas, pássaros perversos que debicam cabelos e zombies que arranham portas desesperados. A tensão é tanta que agora a mulher não consegue ouvir mais nada, só a ofegância das goladas de ar que lhe entram e saem pela garganta contida para não gritar.
Tudo isto caminha para um final inevitavelmente trágico, apesar das referências que ocorrem à pobre mulher não serem mais do que reminiscências daqueles filme de terror manhosos que o seu ex-marido adorava e a obrigava a assistir no “home-cinema” que instalara na cave de sua casa.
E enquanto se imagina a cave de uma personagem menos que secundária, assim se perde a protagonista, que desapareceu, talvez por ter dobrado a esquina, ou até por se ter desmaterializado, como tudo fará um dia.
Devia ser este o final da estória, porque em boa verdade nada mais há a contar, mas a contaremos ainda as palavras, que serão seiscentas e oitenta e oito, pelo último ponto final.
Fica a conclusão e até a moral final para quem as quiser fazer, quanto à pusilanimidade desta estória, fica uma espécie de ideia de coisa.