da Medicina

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“O nosso Professor não procura, não vê e não lida com doenças, mas com pessoas. A sua tarefa não é combater e eliminar os sons anormais no coração de um doente cardíaco ou o buraco nos pulmões de um tuberculoso, mas antes tornar mais fácil a vida a esses doentes, dar-lhes ou inculcar neles, dentro das convicções da sua natureza limitada ou danificada, uma forma de vida o mais favorável ou suportável que for possível. Não receia os doentes incuráveis, não desiste dos doentes terminais, procura tornar os minutos dos moribundos como os anos dos doente ligeiros tão suportáveis e tão cheios de amizade quanto possa. Não pretende forçar ou violentar as naturezas, não pretende tornar robustas as pessoas delicadas nem gordas as pessoas magras, quer apenas possibilitar e facilitar a continuação de cada um na sua pele e pessoa, mesmo quando ainda está demasiado doente. Para tal, o seu primeiro meio é abrir e iluminar diante de cada paciente uma visão do seu próprio ser e sofrimento, é ensinar cada um a compreender interiormente a sua própria vida, a levá-la a sério e a respeitá-la. Ele surpreende e aniquila aquilo que perturba o prazer e a vida, ao desenvolver na razão e no espírito os inimigos e forças contrárias à dor. Vejo aí o elemento crucial da sua arte, que ele se esforça por apoiar com todos os meios, vantagens e ferramentas da técnica da ciência e da técnica médica. Uma intenção nobre e imparcial a todas as manifestações da natureza viva, uma apreciação quase amoral de todos os estados humanos, todas as condições de vida, paixões, enganos – é esse o seu fundamento. E o seu ideal é uma condição da humanidade em que a mais ínfima coisa estaria em pé de igualdade com todos e onde a razão desapaixonada guiaria os pensamentos, decisões e acções das pessoas e dos povos.

in “A Casa da Paz” de Herman Hesse

Migalhas

Sinto muito mas não vou medir palavras
Não se assuste com as verdades que eu disser
Quem não percebeu a dor do meu silêncio
Não conhece o coração de uma mulher
Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor

Quem começa um caminho pelo fim
Perde a glória do aplauso na chegada
Como pode alguém querer cuidar de mim
Se de afeto esse alguém não entende nada
Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor

Não foi esse o mundo que você me prometeu
Que mundo tão sem graça
Mais confuso do que o meu
Não adianta nem tentar
Maquiar antigas falhas
Se todo o amor que você tem pra me oferecer são migalhas
Migalhas

Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor
Sinto muito mas não vou medir palavras
Sinto muito

Erasmo Carlos

O momento da aurora

Um rabino reuniu seus alunos, e perguntou:

-Como é que sabemos o exato momento em que a noite acaba e o dia começa?

-Quando, à distância, somos capazes de distinguir uma ovelha de um cachorro – disse um menino.

O rabino não ficou contente com a resposta.

-Na verdade – disse outro aluno -sabemos que já é dia quando podemos distinguir, à distância, uma oliveira de uma figueira.

-Não é uma boa definição.

-Qual a resposta, então? – perguntaram os garotos.

E o rabino disse:

-Quando um estrangeiro se aproxima, e nós o confundimos com o nosso irmão, este é o momento em que a noite acabou e o dia começa.

Paulo Coelho Novembro 2011

d’ Educar

Trabalhar o dobro, para ganhar mais e poder finalmente dar um videojogo à criança, não é amar.
Amar não é pedir para portar bem e ignorar se isso não acontecer.
Amar é fazer o melhor para o outro, mesmo contra a sua vontade.
Mas cuidado, a liberdade é um direito primordial! Por isso é que um bom par de estalos quando há uma birra, é muito mais amor do que um “Cala-te lá que eu dou-te um telemóvel da Hello Kitty”!

Podre

Nós eramos uma espécie de vegetais, viviamos demolhados em antidepressivos e calmantes, que nos mantinham em permanente sonolência despreocupada. Eramos um casal completamente disfuncional, mas não se notava porque os outros eram iguais.
Tivemos um filho e isso parecia que nos ia dar a energia que faltava, mas na realidade as noites sem dormir aumentaram a dose de calmantes ao invés de a reduzir.
Uma noite, enquanto a nossa filha, quase amada, dormia entre nós; aconteceu.
A nossa filha era “quase amada” porque em tudo o que faziamos era como se fôssemos zombies, até o amar era “mais ou menos”.
Naquela noite, como em quase todas, estavamos encharcados em medicamentos. Um de nós, não sabemos qual, virou-se na cama e com o peso dos nossos corpos disformes e gordos asfixiamos o único raio de luz que tinhamos na vida.
Assim, tal e qual. É assim que conto, porque foi assim que se passou.
Gostava de dizer que fiqueio desesperado e que atirei com coisas pelo ar, ou que fiquei catatónico durante meses.
Não. Fiquei na mesma, incapaz de sentir o que quer que seja. A minha mulher não sei, foi embora uma semana depois.
Sempre que falo sobre isto, há qualquer coisa dentro de mim que começa a doer, mas tomo um comprimido e vinte minutos depois começo a ficar melhor.
Não me rio há anos, mas também não choro.
É isto.

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