Às vezes temos a sorte de testemunhar pequenas maravilhas…
Vejam esta:
Às vezes temos a sorte de testemunhar pequenas maravilhas…
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Analucia nunca me foi muito próxima, nem nunca será.
Era daquelas pessoas de pouco contacto físico, não por algum tipo de inaptidão ou preconceito, mas apenas porque sim. Falava pouco e tinha até um ar distante, associado a uma competência impar.
Uma vez (uma única vez) falou-me de forma mais ríspida e eu fiz-lho notar.
Aproximou-se de mim, fez um sorriso generoso e pediu-me desculpas sinceras, enquanto corava e me tocava no braço obrigando-me a olhá-la nos olhos.
Isto tudo durou poucos segundos, mas o suficiente para me sentir culpado por muitos dias. Quem sou eu para desculpar um ser deste tamanho?
Há paixões descomunais, outras passageiras, algumas terríveis, de derreter os miolos…
Pois certa vez eu vivi uma paixão estética. O homem era um deus. Era burro, mas era belo. Extraordinariamente belo!
M possuia uma história de vida especial, fugira do país de origem muito jovem e mais não posso contar sob o risco de identificá-lo, mas o facto é que um bonito enredo não torna os seus heróis necessariamente brilhantes. M gostava mesmo é de tocar violão e dormir. Falava pouco e quando falava não dizia nada e eu pensava:
- Como é burro, meu Deus!
Mas aí olhava para aquele Grand Canyon adormecido a meu lado e amolecia:
- Como é belo!
Assim seguiu o nosso namoro, semana após semana. Sem palavras, quase sem sexo, mas de encher os olhos.
Durou 6 meses.
Maitê Proença – Uma vida inventada
Hoje era dia de criação
era dia de fazer futuro
de trazer sonhos aos outros e com isso realizar os seus
mas o talentoso sentia-se
e por isso em vez de fazer o que sabia dever
estava embrenhado em si mesmo,
não conseguia pensar em mais nada
Por isso fez coisa nenhuma
engordou
depois faria dieta…
Voltaria ao zero
e talvez no fim se pudesse dizer dele:
“Não foi mau”
esquecendo que também não fora bom
Isso não o importava,
só tinha espaço para os poucos centimetros de si mesmo
e o único tempo que o importava terminava à hora da próxima refeição
O anjo estava cabisbaixo, com o olhar baço.
Ana, nesse dia, olhara-o nos olhos já por várias vezes, enquanto implorava pela sua ajuda.
Os olhos marejados daquela menina tinham em si beleza suficiente para desempedernir qualquer coração, mas o anjo estava oco e não sabia o seu lugar no mundo.
Chamava, chamava, mas não vinha
ficava ainda menos, porque nada respondia
chamava, chamava, até que a voz se esvaía
Nada, nim, era tudo o que tinha
Gritava! Gritava!
tão baixinho que que ensurdecia o anjo
inapto, inútil
sem vez, sem força
Como se o Mar, a Fé e o Sol
fossem só resistência eléctrica, quererzito ou pingas
e em quanto menos se tornava
em mais ficava a sua derrota
e mais se batia,
mas não cumpria
Era só esticar o braço e passar a mão invisível pelos cabelos,
mas não tinha para tanto
e era tão pouco…